sábado, 20 de novembro de 2010

ADEUS ANGOLA NOSSA


Esta página tem por finalidade, transmitir às novas gerações,  momentos vividos por mim e familiares para que o que passamos, não caia no esquecimento.

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Adeus Angola

Às seis horas do dia seis de Setembro – sábado – em caravana de umas 300 viaturas, escoltada por 30 militares, arrancamos do Lubango rumo à África do Sul. Percorridos 380 km, sem problemas, às 17 horas atravessamos a fronteira de Santa Clara. Aguardava-nos um grupo de militares sul-africanos com colchões, cobertores, alimentos em conserva, água, refrigerantes e, até, uns cubos combustíveis para amornar os enlatados. Pernoitamos ao relento. Não fazia frio.
Às onze horas do dia seguinte – com feijão ao lume para o almoço – chega uma ordem de partida para Oshakati. Todas as viaturas foram reabastecidas (de graça) até à boca. A deslocação durou umas duas horas. Em Oshakati fomos “instalados” num campo próximo do hospital missionário, preparado para a situação, com algumas tendas, água encanada, latrinas e balneários. Com lenha à mão, o feijão volta ao lume. Cozido e apurado, foi servido como almoço/jantar.
No dia seguinte, de manhã, as autoridades, por altifalante, ordenam a formação em fila para registo dos refugiados e vacinação. Terminadas estas formalidades as autoridades solicitam – sob aviso de inspeção – a entrega de armas, drogas e literatura pornográfica; e diamantes a enviarem para classificação em Pretória e posterior pagamento de oitenta por cento do seu valor. Aos portadores de café, se desejassem vendê-lo, ser-lhes-ia passado um salvo-conduto para todo território sul-africano. Por fim foi-nos dada liberdade para exposição e venda (sem encargos) dos artigos que conseguimos transportar (salvados!).
Ali vendemos duas viaturas, uma moto, frigoríficos, máquinas de costura, fogões, louças, porcelanas, talheres e mais artigos. Tudo por um quinto dos justos valores.
Na tarde do dia nove somos avisados da partida no dia seguinte para o campo de Grootfontein, a 300 km.
A nosso pedido, por conveniência – em troca de umas garrafas de whisky – foi-nos permitido permanecer mais um dia no campo. Assim, o nosso grupo, agora em quatro viaturas, partiu isolado. Eram onze horas – onze de Setembro de 1975. Percorridos uns 100 km parte-se o veio da bomba de injecção da Bedford, sendo levada a reboque. Obrigados a marcha vagarosa passamos a noite, ao relento, em Tsumeb. Alcançamos o campo de Grootfontein às catorze horas do dia doze.
Ficamos todos alojados em tendas militares, com colchões e cobertores de sobra. Existiam balneários e latrinas suficientes, apesar dos estragos causados, por malvadez, pela leva – mais numerosa – que nos antecedeu.



Campo de refugiados em Groodfontein

Funcionava um serviço de pequeno-almoço e almoço. Porque era sempre a mesma “ementa” (carne de vaca com ervilhas) e mal confeccionada, passamos à cozinha própria, até para consumir a grande quantidade de provisões levadas de Angola.
Em tenda própria funcionava um serviço de assistência médica prestada pelo Dr. David Parson, filho do já referido Dr. Parson do hospital do Bongo.
Cerca de uma semana após a nossa chegada ao campo, o nosso grupo divide-se: Camilo, Adelaide, sete filhos com idades entre um e treze anos, em transporte rodoviário ocasional, partem para Windhoek; e dali, de comboio, até Johanesburgo munidos das passagens de avião, compradas em Angola, com destino ao Brasil.
Nos finais de Setembro o Dr. David anuncia a possibilidade de emigração dos refugiados no campo para os E.U.A., com transporte aéreo gratuito, através de uma instituição americana. Só seriam aceites inscrições de pessoas com os passaportes válidos.
A notícia despertou certa euforia. Como nem todos possuíam passaporte, por solicitação dirigida ao Cônsul de Portugal em Windhoek, este fez deslocar um funcionário ao campo a fim de formalizar a emissão dos passaportes. O meu, tem o número 278/75; o da Lucília, 282/75, emitidos em 3 de Outubro de 1975, assinados pelo Cônsul Carlos E. de Sousa Aragão.
Tantas voltas para nada. Efectuou-se apenas um voo. Explicações: insuficiência de fundos!...
Grootfontein. – Sítio árido, sol escaldante. Foi ali, numa tarde da primeira quinzena de Outubro, por carta de Maria Andrade para a Amélia, por intermédio duma prima em Lisboa, chegou a dolorosa notícia do falecimento do Pai, Avô, Bisavô, Irmão, Sogro aos que, uns dias atrás, o haviam visitado em sinal de despedida, agora tão distantes!

Campo de refugiados em Groodfontein


Os dias foram passando. Monótonos. Tórridos de sol a sol; frios durante a noite. No exterior da vedação mais de uma centena de vários tipos de viaturas estacionadas. Umas com as cargas de origem; outras vazias. No campo de Windhoek a situação era idêntica. Os seus proprietários – alguns já em Portugal – a vende-las por valores humilhantes preferiram abandona-las.
As autoridades sul-africanas não prometiam o embarque destas para Portugal; e da parte do governo português, nem sinais. Assim, a aproximar-se a hora da nossa “repatriação”, acabamos por “vender” as quatro viaturas por cerca de 50 contos. E, por muito favor, l000 litros de combustível e 500 de óleo por 5 contos.
De pasmar: nas vésperas da devolução do campo todas as viaturas abandonadas foram recolhidas para um recinto vedado; e no decorrer de 1976, tal como haviam sido abandonadas, despachadas para Portugal e entregues aos seus donos.
No dia 22 de Outubro é anunciada a nossa partida. Nessa noite, militares e alguns residentes da cidade, honraram-nos com uma festa de despedida, no recinto de jogos desportivos, com grupo musical.
No dia 23, os nossos pertences, devidamente rotulados, são transportados para a estação do comboio; e, de seguida, as pessoas: acomodadas, por agregado, em cabines com beliches de acordo com o número de indivíduos. Coube-nos a cabina 21, onde encontramos latas de conservas, fruta natural e bebidas. Ao meio-dia em ponto, ouve-se o silvar do comboio. Em toda a sua extensão, o acenar de muita gente, entre esta um Padre a dar-nos a sua bênção. Bem – hajam! Adeus Grootfontein!
Partida do campo de refugiados de Groodfontein para a estação de comboios.
Os poucos que ficaram no campo – entre estes o Zeca, Amélia e filhas – foram enviados para Johanesburgo, e dali, de avião, para Portugal.
Cerca das l7 horas o comboio pára na estação de Otchivarongo, para atrelagem doutras carruagens com mais gente proveniente do campo de Windhoek. Retomada a marcha, sem paragens, às 8 horas do dia 24, ouve-se o chiar dos travões a anunciar o fim da viagem e da linha-férrea. Estávamos no porto de Walvis Bay.
Sob denso nevoeiro, 1500 (?) desafortunados, em fila, vão sendo transferidos para bordo dum navio de cruzeiro, fretado pela África do Sul. A operação, cuidadosamente controlada pelas duas partes – autoridade sul-africana e tripulação do navio –, demorou umas duas horas. Foi respeitada a atribuição de camarotes e beliches de acordo com a praticada no comboio. Calhou-nos o camarote 21. Foi servido almoço e jantar no navio, ainda ancorado.
Dormimos bem. Seriam seis horas, dia 25, quando nos apercebemos que o “Oceanic”, de Taiwan, já havia levantado ferro. Cumpria a sua terceira e última viagem: numa missão sem nome.

ADEUS ÁFRICA!

barco copy

Oceanic Independence, o navio que nos trouxe para Portugal.

A bordo, em gabinete adequado ao seu trabalho, encontrava-se uma funcionária do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – IARN, de nome Lígia. A sua missão consistia no contacto com as famílias nucleares e indivíduos solitários – constantes da relação em sua posse – para efeitos, se necessário, de alojamento em Portugal.

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Às 8 horas da manhã do dia 7 de Novembro o majestoso transatlântico “Oceanic” entra na barra do Tejo. Às l0 horas atraca no Cais da Rocha, Lisboa. É colocada a escada para o desembarque. Mas tal não acontece. A “mando”duma comissão, previamente constituída – apoiada por todos –, o desembarque só teria lugar mediante a troca dos escudos “coloniais” por escudos portugueses. O refeitório, servido o pequeno-almoço, foi encerrado. Mesmo num entra e sai da funcionária do IARN para atender à situação, manteve-se o impasse. Ante tal momento, foram distribuídas latas de feijão, fruta e leite.
Às 22 horas é anunciada a troca da moeda, no aeroporto. As deslocações seriam de autocarro, em grupos de 30: cabeças dos agregados familiares e solitários. Em qualquer das situações, a troca era de 5.000$00 apenas! Atendidos os dois primeiros grupos – dos quais fiz parte – as operações foram suspensas.
No aeroporto, pelo mesmo motivo, assistia-se a uma situação confrangedora: na zona das chegadas, gente deitada no chão, enquanto os mais fortes, revoltados, mantinham-se firmes.
No dia 8 foram distribuídas pelo IARN senhas individuais de almoço, servidos pelos restaurantes próximos do cais.
Com a tripulação do navio a dar sinais de impaciência, a meio da tarde os passageiros espalham-se pelas varandas e convés com gestos de manifesto protesto. Depois dum constante sobe e desce, é retomada a troca de moeda no aeroporto. A comissão recusa mais deslocações. Exige que a operação fosse efectuada no navio. Quase de imediato entram dois “bancários”, com suas maletas, acompanhados por funcionários do IARN. Terminadas as transações, o pessoal abandona o navio. E, de seguida, descarregadas as bagagens, atiradas brutalmente para o chão pelos malvados estivadores.

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De rol nas mãos, os funcionários do IARN fazem a chamada e em simultâneo a separação em grupos – de antemão selecionados – para diversos locais de alojamento. Calhou-nos o Grande Hotel da Figueira da Foz. Onde, acompanhados pela S.ª Lígia, chegamos já próximo da meia-noite. Distribuídos os quartos – coube-nos o 421 –, mesmo àquela hora tardia, foi-nos servida, nos aposentos, uma merenda.





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Desgraça nossa: estávamos em Portugal; num Portugal sem rei nem roque… Em Angola, éramos cidadãos portugueses; da fronteira de Santa Clara ao porto de Walvis Bay, refugiados portugueses; em Portugal, apátridas! Os Bilhetes de Identidade de Cidadão Nacional, encimados com a distinção 


“R E P Ú B L I C A    P O R T U G U E S A” 

passaram a imprestáveis; nem sequer aceites para transcrição e posterior emissão dum novo B.I. de Cidadão Nacional. Para o efeito, era exigida a certidão de nascimento e a dum ascendente português constante na certidão. Em certos casos difícil e noutros impossíveis de satisfazer: daí o arrastar dos processos durante muitos anos e, até, esquecidos!
Do execrável e enganoso Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – covil de ladrões – só a palavra retorno produziu efeito: enriqueceu o vocabulário com o douto adjetivo:

R E T O R N A D O ! . . .

Texto de Jorge da Conceição Rodrigues






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«A incompreensão do presente nasce fatalmente
da ignorância do passado".
Marc Bloch

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Chamaram-nos  RETORNADOS








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Neste ano, já é a terceira vez que vos escrevo acerca de 40 anos volvidos sobre diversos acontecimentos pessoais e familiares.
Desta vez, vou partilhar convosco a nossa parcela, considerando a minha família nuclear e próxima, no êxodo que constituiu a vinda de muitos milhares de refugiados deAngola, Moçambique e dos outros territórios. Por diversas formas vieram, como é consabido. No caso de Angola: grande parte dos refugiados veio pela ponte aérea paraPortugal; outros ainda vieram em navios diretamente de Angola para Portugal enquanto possível; outros milhares, refugiaram-se no Sudoeste Africano (hoje Namíbia) e na África do Sul, onde alguns conseguiram por lá ficar, mas, grande parte destes certamente teve de rumar para Portugal também, ou para outros países, quer por via aérea, quer por navios fretados para transportar os refugiados que estiveram temporariamente alojados em campos. Os números de cada situação e os globais são um tanto imprecisos, consoante as fontes, mas todos juntos fomos largas centenas de milhares de refugiados das antigas províncias ultramarinas.

Ora, narro agora o nosso caso, o da odisseia do meu grupo familiar. Era outubro de 1975. Face às condições de grande instabilidade político-militar na pré- independência de Angola, insegurança, lutas constantes entre forças do MPLA e da UNITA na cidade do Lubango, onde vivíamos nessa conturbada época, aliada à crescente escassez de bens de primeira necessidade, deficiência na assistência de saúde, enfim a zona e a cidade a aproximarem-se quase do colapso social, comercial e económico. Tempos pois estonteantes, de muito risco, altamente inseguros sob todos os pontos de vista, pelo que, fomos forçados a tomar a resolução de também partir... Tal qual, como milhares de refugiados já o haviam feito antes de nós, e como outros o fizeram depois. Era a salvação imediata. E o destino que escolhemos, face a haver uma ponte aérea, foi Portugal, reforçado por alguns de nós sermos funcionários públicos, o que permitiria, prometia-se, e veio a acontecer, ingressar no funcionalismo em Portugal, num criado quadro geral de adidos.

Eis, pois, a constituição desse grupo, desta família que fora de José Maria Rodrigues (este falecido, em condições confrangedoras, no Lubango pouco tempo antes, em 26.09.1975, como já relatei noutro escrito que vos enviei): Irene, minha mãe, na época com 64 anos; sua afilhada Joana, jovem de 14 anos; meu irmão Higino, 32; sua mulher e minha cunhada Aldina, 29; seu segundo filho Bruno, com tenra idade; minha mulher, Helga, 23; com nosso bebé Henrique, quase recém-nascido pois tinha um mês e meio de idade; minha filha Graça, 8; e eu, Júlio, com 31 anos. Nove pessoas ao todo, sendo cinco adultos, três crianças e uma adolescente.

Nas semanas anteriores, foi conseguir encomendar caixotes nas últimas carpintarias em funcionamento na cidade, e ir enchendo-os com o possível: máquina de lavar roupa, outros pequenos eletrodomésticos, máquina de costura Singer (da minha idade, pois entrou na minha casa em Caluquembe no dia em que nasci e que ainda hoje a conservo), tapetes, carpetes, utensílios, aparelhos diversos, bibelôs, imensos livros (meu pai possuíra uma biblioteca razoável e havia sido um grande leitor), algumas mobílias e peças de mobiliário, álbuns de fotografias, slides, malas da cânfora, bar chinês, projetor de slides, écran, utilidades diversas e inúmeras outros objetos que era possível meter em uma dúzia de caixotes, de diversas cubicagens. Tentávamos encaixotar a nossa vida…disfarçar o vazio que crescia na nossa alma.
A minha tia Madalena, prima direita e cunhada de minha mãe, foi incansável na ajuda que nos deu a arrumar os caixotes. Mas de notar que a maioria desses bens encaixotados pertenciam ao recheio da casa de minha mãe, e que fora do meu pai; bem como ao recheio da casa do Higino e Aldina, que arranjaram igualmente os seus caixotes. Mas, os pertences, meus e da Helga, constituídos sobretudo pelas muitas prendas de casamento, este ocorrido ainda não havia um ano na ex-Nova Lisboa (Huambo), ficaram por lá, visto que as condições de insegurança ainda foram piores, mais insuportáveis que as do Lubango e já não foi possível aos pais da Helga, onde os nossos bens se encontravam guardados, providenciarem o seu transporte para Portugal. Quanto aos automóveis, consegui ir a Moçâmedes, uns tempos antes da nossa partida, despachar o carro de meus pais, um Audi 100 LS, e o meu, um Autobianchi A111. Estacionei os dois juntos no imenso parque de viaturas à espera de embarque; ainda pensámos meter coisas nos porta-bagagens mas, receosos, não o fizemos, e ainda bem, pois só o meu carro chegou a Portugal, o de meus pais nunca apareceu…Houve quem o tivesse visto a circular, tempos depois, numa cidade em Angola, subtraído assim ao embarque... O Higino e a Aldina também despacharam dois automóveis, um seu (Mini) e outro (Lancia) dum cunhado os quais tiveram o mesmo destino, isto é, nunca chegaram a Portugal.

Voltando ao Lubango: lá conseguimos ainda alugar uma camioneta que levasse os caixotes à estação do Caminho de Ferro, sita no bairro de Stº António, que seriam transportados para o porto de Moçâmedes (hoje Namibe) a fim de seguirem para Lisboa. Todos estes afazeres, formalidades alfandegárias, requerimentos, guias de desembaraço, etc., quer em relação aos bens, quer a nós próprios, eram conduzidos num stress indescritível, com muita tensão e nervos, e sob emoção e tristeza, face ao abandono iminente de nossas casas e de muitos outros pertences, ainda que alguns fossem móveis eram intransportáveis, mas sobretudo chorávamos por dentro pela saída, forçada pelas
circunstâncias, da nossa, e de nossos ascendentes, querida terra angolana, e assim deixarmos os nossos sonhos. E ficámos apenas com a memória. Talvez alguns acessos de tristeza estivessem a ser anestesiados no momento, pela psicose coletiva que se estabeleceu, ao haver todos os dias um número crescente e imparável de refugiados de partida da cidade, entre conhecidos, desconhecidos, amigos, familiares. E, ainda, no coração de cada um, decerto, haveria uma réstia de esperança de um dia no futuro voltarmos a viver e trabalhar na nossa querida terra angolana…que não desejáramos abandonar (mas a este grupo familiar que relato nunca aconteceu alguém voltar a viver em Angola, pelo menos até à atualidade…).
As datas que refiro de seguida, penso estarem certas. Assim, o dia 10 de outubro de 1975 chegou. Foram as despedidas finais emocionantes, da prima Isaura que chorava, da Madalena que não chorava mas tinha um semblante tristíssimo (ela também, sem o imaginar na ocasião, teria de refugiar-se em Portugal meses depois), etc. Era o meu pai que ficava e deixávamos… lá no cemitério da Mitcha. Tomámos um comboio na estação de Stº António, aliás a estação que servia e serve o Lubango, visto que na época a antiga já fora desativada. Chegava a noite desse dia. Nós, e dezenas ou centenas de outros refugiados tomámos o comboio. Lembro-me que, pelo menos, a cabine onde viajámos, não tinha luz e fizemos a viagem de noite inteira às escuras… O meu amigo de peito e colega Pissarra, padrinho de casamento da Helga, também viajou nesse comboio e connosco continuou, passando praticamente a fazer parte do nosso grupo familiar.

Chegados pela manhã do dia 11 a Moçâmedes, fomos desembarcados no porto comercial. Estava-nos destinado um navio da Armada Portuguesa, a navio tanque reabastecedor S. Gabriel (que hoje já não existe; ver foto). Ali fomos arrumados para  pernoitar da forma como foi possível, mais ou menos assim: mulheres e crianças na coberta, homens no convéns, praticamente ao relento ou nos “varandins” laterais. Não nos queixávamos, resignávamo-nos. E, lá se iniciou a viagem marítima pela costa angolana, julgo que já era da parte de tarde, rumo à capital Luanda. Levávamos connosco farnéis e alguns pertences em malas ou sacos que nos podiam acompanhar. Não tivemos frio, pois em Angola, em outubro, está temperatura amena, não choveu, e dormimos, os homens, encostados uns aos outros, lá em cima, éramos muitos e havia que rentabilizar o espaço, e as mulheres e crianças em beliches na coberta, como já indicámos atrás.


 

Navio tanque reabastecedor da Armada Portuguesa


Fotos seguintes: 11 e 12.outubro.1975



  No porto de Moçâmedes enquanto se aguardava o embarque
(Helga com bebé Henrique, Joana, Irene e Aldina)


 Idem, quase a embarcarem (em primeiro plano consegue-se ver o nosso grupo familiar)

  
Pela manhã, começava o dia 12, até avistámos golfinhos, pois quando navegávamos no final do percurso já o sol rompera, até aportarmos em Luanda.
Irene, Higino e Aldina a bordo do navio reabastecedor da Armada Portuguesa
S .Gabriel, rumo a Luanda

Aguardámos algum tempo no navio e depois fomos levados em autocarros, julgo lembrar-me, para o antigo quartel do batalhão de paraquedistas 21, nos arredores de Luanda, em Belas. O qual estava feito num autêntico campo de concentração, degradado, com instalações sanitárias imundas, falta de água com frequência. A Helga, o bebé e as mulheres e crianças lá armaram melhor proteção, dos mosquitos também, numa antiga caserna e os homens preferiram dormir quase ao relento, e no chão. O Pissarra continuava connosco. Havia distribuição de alimentos e organização dos grupos que seguiriam nos próximos aviões da ponte aérea.

E, faziam-se avisos e chamavam-se pessoas por altifalantes ou íamos a uma secretaria saber informações. Felizmente para nós, apenas estivemos ali uma noite e um dia, mais ou menos, nesse campo tão desolador e tão sujo já, do que fora um impecável quartel. O Pissarra e eu, ainda conseguimos, arranjar forma de irmos ao centro da capital, mormente para recolhermos os nossos processos individuais nos serviços de veterinária de Angola, o que era facultado a quem viesse ingressar no tal quadro geral de adidos.

No aeroporto de Luanda, na noite de 13 de outubro, pisámos pela derradeira vez o solo angolano. Tomámos, um avião soviético, apercebemo-nos disso no decorrer da viagem, rumo a Lisboa. Na cabine só podíamos trazer o indispensável, pois malas e objetos considerados a mais iriam no porão, não facultaram nada. Na barafunda da entrada para o avião, perdeu-se o leite em pó e o biberão do Henrique. A bordo, lá conseguimos que as assistentes arranjassem um biberão e outro leite, mas, para um bebé, foi uma alteração rápida e daí, talvez, o desencadear dum problema de gastrenterologia e desidratação que adveio dias depois em Lisboa, com o seu internamento, com prognóstico muito reservado, no hospital pediátrico D. Estefânia, onde, à partida, houve muita dificuldade em o internar, o que foi conseguido face à sensibilidade dum médico espanhol de serviço. E onde o bebé, sem saber, lutou pela vida durante talvez mais de dez dias. Voltando ainda atrás, à viagem de avião para Lisboa: forneceram-nos refeição a bordo e tentámos dormir, tão exaustos estávamos, psíquica e fisicamente.

Chegámos a Lisboa manhã cedo, era o dia 14 de outubro de 1975. A Cruz Vermelha encaminhou a Helga e o bebé para um local mais recolhido naquelas instalações do edifício do aeroporto, espaços repletos impressionantemente de pessoas, a maioria sentada ou deitada no chão, atapetado com cobertores, com a humidade e o frio já do outono, tudo para nós desconhecido e quase nos amedrontava. Num balcão improvisado do Banco de Angola, trocaram-nos 5 contos de escudos angolanos, por pessoa, por 5 contos do dinheiro de Portugal, embora trouxéssemos, alguns de nós,
dezenas ou centenas de contos angolanos das nossas poupanças. Dinheiro angolano esse que se tornou lixo. Porém, outros refugiados, sabia-se, nem os cinco contos tinham para troca.

Nesse dia ainda, a Helga e eu, apanhámos um táxi para irmos para o parque municipal de Monsanto procurar a casa dum amigo que nos veio a receber durante algum tempo; o táxi deixou-nos algures por Monsanto, perante uma morada incerta, e ainda tivemos de muito andar a pé para dar com a casa do nosso amigo, funcionário do parque, o Pedro Baptista. Desconhecíamos que o IARN, Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, nos podia ter dado alojamento em hotéis. Mais tarde, viemos a fruir desse apoio. O Higino, Aldina e Bruno foram logo encaminhados, sem muito esperarem, por um cunhado, o Luís que já chegara a Portugal há semanas, para um hotel em Colares. E assim, o grupo separou-se logo à chegada a Portugal. Foi pena, mas foram as circunstâncias. O Pissarra seguiu para o norte para junto de sua família.

E, fomos tentando resolver as nossas vidas de imediato, de desenrasque em desenrasque… De luta em luta. De fila em fila.

Do grupo familiar, cada um teve o seu percurso pessoal e profissional nestas quadro décadas. Sucintamente: minha mãe, Irene, foi doméstica, viveu sempre comigo, faleceu aos 99 anos em Sesimbra; Joana, afilhada, trabalhou em diversos locais, tem um filho, e hoje vive e trabalha em Inglaterra (já foi algumas vezes ao Lubango); minha filha Graça trabalhou em várias empresas, teve três filhas, reside no concelho do Seixal onde é empregada duma indústria; Higino, meu irmão, reside no concelho do Seixal, tem três filhos de Aldina, que foi professora do ensino básico, e faleceu aos cinquenta e tal anos, em 2002, foi sepultada onde vivia ultimamente, em Mafra; seu filho Bruno, é hoje bombeiro e reside na Ericeira; Helga é funcionária e reside em Sesimbra, tivemos mais dois filhos para além do Henrique, este licenciou-se, é funcionário municipal em Sesimbra e reside na Amora, tem três filhos; por fim, eu, Júlio, fui médico-veterinário municipal em Sesimbra, hoje já aposentado, e onde resido (fui duas vezes à nossa terra Lubango: a primeira em 2003, com o Henrique também; a segunda, em 2013, sozinho, ao Lubango e Caluquembe, esta minha terra natal).

Fez há dias, em 14 de outubro, 40 ANOS QUE CHEGÁMOS A PORTUGAL. Outras terras, outras gentes, outras vidas. Os tempos seguintes, ou seja, os primeiros dias, semanas, anos e décadas, duma vida nova, diferente, difícil e desenraizada, onde a amargura pela saudade da terra e da vida que deixámos em definitivo lá longe nunca se desvaneceu, ficarão para outros escritos, talvez.

                                                                                Júlio Rodrigues (Sesimbra, out.2015)




quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ODISSEIA DE UMA GENTE – 1884 -1ª Parte

 

 

ODISSEIA DE UMA GENTE
Carro bóer – Réplica à escala 1 – 5 m. Construído por Jorge Rodrigues
1884 – ODISSEIA DUMA GENTE - PRIMEIRA PARTE
Duma Ilha para um continente
A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçâmedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.

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PORTELA DO BRUCO “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros

Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.
Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla.
Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.
Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.
Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.
Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.

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Carro boer puxado por vária juntas de bois (foto internet)

Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.
Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…
Do mar para a serra – penosa viagem
Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.

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Carro boer puxado por vária juntas de bois atravessando o Caculuvar (foto internet)

Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.
Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.
A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.
Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.

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Mais desencantos – Barracões
Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.
Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas commalói.
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(Extraído do livro “A Colonização de Terras Altas da Huila”) de Carlos Alberto Medeiros Primeiras casas de colonos madeirenses na Chibia
Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.
Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.
Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.
Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:
NESTE LOCAL INSTALARAM-SE
OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES
EM 1885
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Lugar dos barracões

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Lugar dos barracões. Foto de Armindo Ferreira da Colorama (Luanda)

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Lugar dos barracões

ODISSEIA DE UMA GENTE–segunda parte



 
Segunda Colónia
A 19 de Junho de 1885, o barco de guerra “África” lança âncora na baía de Moçâmedes. A bordo um contingente de 336 emigrantes, provenientes da Madeira, com destino, tal-qualmente à primeira colónia, ao planalto da Huíla. Este contingente passa a ser conhecido por “Segunda Colónia de Madeirenses”. Ao desembarcarem, para descrédito e vergonha dos governantes da vilória de Moçâmedes, assiste-se à repetição do episódio ocorrido com a primeira colónia sete meses antes: não foram providenciados atempadamente os meios de transporte para o destino final. Motivo? Porque o governo pagava (quando pagava…) tarde e mal os serviços prestados pelos transportadores. Daí os proprietários dos carros – na maioria bóeres – só aceitarem trabalhos mediante pagamento adiantado.
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Carro Bóer de passageiros – Humpata “ A colonização de Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
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Carro Bóer– Moçâmedes “ A colonização de Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Sem outra alternativa o governador viu-se obrigado a entrar em negociações com os “temidos” bóeres da Humpata. Ultrapassado o delongo impasse, os carros desceram a Moçâmedes; e a 1 de Agosto, após uma enervante espera de 40 dias, a colónia, em conjunto, enceta viagem em caravana formada por 30 grandes carros-bóer.
O percurso desta segunda colónia, comparado aos dramas da primeira, contados nos capítulos anteriores, pode-se considerar sofrível. Em Moçâmedes, essa gente, embora mal acomodada, ali e até ao sopé da Chela, graças à época de cacimbo, o calor foi suportável. A partir dali, gradualmente, foram sentindo o frio das altitudes; mas, em compensação, livres da chuva e consequentes atoleiros que muito contribuiu para a redução do tempo do trajecto. E o mais importante, a expectativa destes na indescritível consolação do reencontro com os seus patrícios, com tecto preparado para os acolher, cumprido no dia 19 de Agosto de 1885 – Quarta-Feira.
Breve pausa
Vou interromper aqui a história das Colónias Madeirenses para lembrar, em poucas linhas, um pormenor deveras desonroso para os fautores e de meditação e tristeza para todos os huilanos que se prezam.
O Lubango – pré Sá da Bandeira
Topografia – Tratava-se de uma colina plana, abraçada a noroeste, oeste e sudoeste pela Cordilheira Marginal; e a norte, este e sul por densa mata de espécies lenhosas, arbustivas efrutíferas. Situava-se entre os rios Mapunda e Mucufi. Estes detalhes poderão ser apreciados num esboço cartográfico de 1890, a anexar.
Toponímia – Existem duas versões sobre a origem do nome: “Caluvango”, nome dum soba dali; e “Lubango”, nome dum rio, afluente do Mucufi. Esta terra, entre altas serras e rios de curso permanente, representava o território real embelezado com a sua “Ombala”, sob frondosasmulembas, residência do soba (Rei) e da sua corte. Em derredor desta habitavam os súbditos do monarca a cuidar dos arimbos e gados. Em 1874, descoberta esta pequena e edénica terra, foi logo cobiçada e eleita para estabelecimento de colonos: madeirenses e outros. Todavia, a zona teria que ser primeiro “desnegrada”!...
O governador de Moçâmedes, sem efectivos militares à altura para expulsar o soba e a sua gente, confia a “obra” ao capitão Nestor da Costa, latifundiário na região da Bibala no cultivo de algodão, para exportação, e cana-doce para produção de aguardente. Este capitão, com a mira no saque e uma oportunidade para a captura de escravos para as suas plantações, com uma força formada por seus serviçais e outros indígenas da zona (impelidos), ataca o temível soba conhecido por “Cabeça Grande”. Os invasores, após breve escaramuça, foram repelidos e perseguidos até grande distância.
O referido soba, ao tomar conhecimento de que estava a ser preparada nova invasão, esta com o auxílio dos aguerridos bóeres, a cavalo, fugiu para a Cuama. Sem o seu rei o povo dispersou-se deixando a região deserta. Asneira semelhante havia sido praticada em 1881 quando, para a instalação dos bóeres na Humpata, muitas famílias indígenas foram dali deslocadas. Mas com uma diferença; “foram gratificadas!”: fazendas no valor de 46.080 réis (o equivalente a 8 vacas) e três ancoretas de aguardente (60 litros) comprada em Capangombe a 160 réis a canada (1,4 l). Muito generoso esse Nunes da Mata, governador de Moçâmedes! Muito mais gastou ele na deslocação para presidir à cerimónia de inauguração da colónia bóer, chamada de “S. Januário”, a 19 de Janeiro de 1881.
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Rua principal do Lubango, nos fins do século XIX; corresponde a actual Rua Pinheiro Chagas “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Disseminação dos madeirenses
Sob a “direcção” do emproado e prepotente Câmara Leme os 558 colonos, amontoados nos Barracões, foram assim distribuídos: Chibía-44 (director desta nova colónia, o capitão Joaquim Afonso Laje); Humpata-55; sede do concelho da Huila – 32 (não assinalados). Nestas localidades a população branca anterior era: Chibía – 3; Humpata – 44 (além de cerca de 350 bóeres); Huíla – à volta de 100. Após este desmembramento ficaram nos barracões 424 pessoas. Estes números poderão ser apreciados nos mapas a inserir mais adiante.
Nascimento físico da colónia Sá da Bandeira
Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns poucos ficavam de guarda nos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxadas e pás aos ombros, calcorreavam os 5km até aos antigos domínios reais, agora “desinfestados”. Face aos perigos de emboscadas da gente do soba “Cabeça Grande” que embora escorraçado não se deu por vencido, o grupo era escoltado por três praças e uma dúzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) armados com obsoletas e ferrugentas espingardas de “pederneira” do século XVII. A cavalo, chicote na mão e revólver de tambor à cinta, seguia o D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos consistiam no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolongou-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite.
Mais contingentes e seus frutos
De 1888 a 1892 as populações das colónias já citadas foram aumentando com a chegada de mais madeirenses aos Barracões e em seguida deslocados gradualmente até um total de: Chibía – 667; Humpata – 91; Huíla – nada consta! … Os restantes – 823 – ficaram nos Barracões, com destino à colónia Sá da Bandeira e a do Caculuvar. A movimentação e números descritos constam de mapas oficiais a incluir mais adiante.
Em Sá da Bandeira, com os números de homens válidos a aumentar a cada ano, foram abertas novas levadas, distribuídos talhões para a construção de casas de pau-a-pique e capim e alargadas, com arados, as áreas para a cultivo de: cereais, legumes, leguminosas, espécies tuberculosas e bulbosas. Foram também plantadas, para ensaio, algumas espécies de árvores frutíferas.
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TRABALHOS AGRICOLAS LUBANGO XIX “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
No primeiro e segundo ano os resultados agrícolas foram desanimadores. Causas: insuficiência de bois de tracção para as charruas; sementeiras efectuadas fora das estações próprias; sementes de má qualidade; e o pior, incompetência e teimosia dos pseudotécnicos agrários importados de Portugal. Graças aos conhecimentos levados da Madeira e as experiências adquiridas no terreno, os proveitos foram melhorando progressivamente. Há que reconhecer, embora pouco amistosos, a utilidade dos bóeres na venda de bois mansos, cangas, peaças,brochas, etc. Artes que, na época, só eles dominavam.
Imperdoável – símbolos perdidos
Lamentavelmente, para nossa vergonha, da “Ombala” nenhuma mulemba foi poupada nem sequer assinalado o seu lugar. O rio “Lubango”, devido ao seu desvio na fonte para as levadas, desapareceu: nem uma simples rocha foi colocada a assinalar o local do seu assoreado leito. Sorte semelhante sofreu o rio “Mucufi”. Não obstante mais caudaloso que o rio “Lubango”, por causa das sucessivas captações na sua cabeceira, o remanescente, ainda no seu curso superior, foi açudado, desviado para a levada que irrigava os campos de trigo do bairro da Machiqueira (de Machico). Esta levada acaba represada para mover os rodízios duma moagem de cereais. A partir dali, às curvas e contracurvas, transforma-se em regato e volta ao leito materno já confluído com o rio Mapunda, originando o Caculuvar que deu nome aos barracões e à maldita colónia. Depois de lhe roubarem toda a água, o Mucufi passou a expressão de mulola e reservatório de lixo. O rio Caculuvar vai engrossando ao receber os rios Nompaca, Tximúcua, Lupolo (ou Huíla) Txipumpunhime e alguns riachos. Depois de oferecer um pouco do seu caudal para regar os grandes campos dum outro Caculuvar, Txahungo e Missão Católica da Txihíta (Quiíta) entrega as suas águas ao rio “Cunene”, cujo nome corrompido de “Inênê”, significa enorme.
Entre a maledicência e a verdade
Pelos fracassos, em todas as áreas, de colonização dirigida, a culpa era sempre assacada aos madeirenses, apodados de: preguiçosos, incompetentes, bêbados, etc. e nunca assumida pelos irresponsáveis mandões. Confirmando-se assim um desabafo do ministro Sá da Bandeira: “Que os fracassos do desenvolvimento de Angola deviam-se aos maus governantes em Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola”. Sem pretensões a juízos maniqueístas o que descrevi e o que irei acrescentar corresponde à verdade.
Foram esses humildes madeirenses, tão maltratados fisicamente e ridicularizados moralmente pelos “senhores” idos de Portugal e até por um conterrâneo, com todos os defeitos que injustamente lhes têm sido imputados, ninguém, minimamente esclarecido, se atreveria a desacreditar o seu gratificante legado. Foram eles, fustigados pela chuva, sol, vento e frio que desbravaram, aplanaram e – milagre (!) – conquistaram a merecida confiança e aproximação dos dóceis muílas tão hostis – com sobejos motivos – aquando da usurpação das suas terras.
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LUBANGO 1969 RUA PINHEIRO CHAGAS “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Foi graças ao labor desses “analfabetos”, que em 1889 a colónia Sá da Bandeira foi elevada a concelho. Lamentavelmente como primeiro administrador o famigerado Câmara Leme. Foi ainda por mercê das obras dos colonos que se “abriram as portas” da Chela para a entrada de emigrantes portugueses europeus – entre eles gente de qualidade – que, com capitais próprios, diversificaram os ramos de actividades: Indústria, pecuária, agricultura e, por inerência, o comércio. Foi pelas mãos calejadas e assisadas iniciativas que essa gente, antes separada pelo Atlântico, agora lado a lado, degrau em degrau, imprimiram, económica e demograficamente, mais vitalidade justificando, em 1901, a criação do distrito da Huíla com capital e nome de Vila Sá da Bandeira, com 1248 habitantes (contra os 1020 de Moçâmedes).
Após 18 anos (obras públicas à portuguesa) desde o início do assentamento da mini linha-férrea (bitola 0,60m) em Moçâmedes, esta atinge o Lubango em 18 de Maio de 1923 e, sobre os seus carris, chega e apita o primeiro mini comboio, e a vila Sá da Bandeira categorizada a cidade. (Em 1939 foram iniciados os trabalhos do seu alargamento para bitola 1,067m).
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“Colónia do Caculuvar”–colónia ou campo correcional?
Em 1890, a uns 4km a sueste dos barracões, foi constituída a colónia do Caculuvar orientada por um subdirector (anónimo!...) subordinado ao director da colónia Sá da Bandeira, Câmara Leme. Nesta “sucursal” foram colocados 247 colonos dos 701 chegados ao Lubango nesse ano. O tempo de vida (omitido) desta colónia foi de curta duração. Motivo? Péssima administração e os inconcebíveis abusos do repugnante subdirector, de conivência com Câmara Leme. João de Almeida, no seu livro Sul de Angola, pagina 296, sobre os desmandos cometidos pelo referido subdirector, deixou-nos o seguinte testemunho:
“Tendo este, uma loja por sua conta, obrigava todos os colonos a comprar-lhe os géneros por preços excessivos, não permitindo que fossem adquiri-los a outra qualquer parte, antes prendendo e castigando corporalmente, duma forma bárbara, aqueles que transgrediam a proibição, correctivo que também aplicava àqueles que se permitiam à liberdade de fazerem observações quanto ao verdadeiro rumo a tomar na abertura das levadas ou direcção dos trabalhos. Este Director da Colónia foi degredado para Moçambique”. Grande castigo, louvável justiça!...
Consequências – A colónia foi extinta, posto termo à imigração por contrato, regresso de alguns colonos à Madeira, enquanto os outros, voluntariamente, transferiram-se para novos lugares menos opressivos.
“O Cavalo-marinho e cascos d´aço
Ao trazer à tona os “feitos” do carrasco da colónia do Caculuvar, não devemos olvidar o cruel Câmara Leme (alcunhado de “navio” por andar sempre de proa empinada, possuir câmara e leme), sempre de “cavalo-marinho” na mão aplicando-o com frequência sobre o “lombo” dos seus concidadãos. Conta-se que na origem dos elevados impostos e outras exigências incomportáveis face ao baixo rendimento dos colonos, estes, encabeçados por Manuel Henriques, marcharam até à administração em sinal de protesto contra os referidos excessos. A resposta do administrador do concelho, Câmara Leme, foi rápida e “satisfatória”, (para ele!). De chicote nas patas e biqueira d’aço nos cascos flagelou e escoiceou o indefeso e pacífico Manuel Henriques, abandonando-o num estado lastimoso. Esta barbaridade pode ser confirmada pelos seus numerosos descendentes.
Admite-se que não foi por acaso a transferência de Câmara Leme para a Ilha de S. Tomé no final do século XIX.
Recompensa
Cerca de meio século após o enunciado nos capítulos anteriores, foi colocado, no liceu Diogo Cão, como professor, o Dr. Mendonça, mais conhecido, devido à sua compleição atlética, por “Mendonça das Forças”, natural da Madeira. À sua estatura física sobrepunha-se o saber e competência na profissão que abraçara. Admirável qualidade, mas excedida pelo seu nobre carácter e sentimentos filantrópicos, em especial para com os seus conterrâneos no Lubango, já na ordem dos vinte mil.
A este homem, culto mas em contrapartida humilde, (discípulo de Baco), se ficou a dever uma louvável acção jamais pensada pelas gentes do Lubango. Foi este homem que proporcionou grande alegria a um grupo de colonos, alguns octogenários, entre eles o citado Manuel Henriques, organizando e acompanhando esse grupo até à Madeira numa romagem de saudades aos cantinhos que os viu nascer. BEM-HAJAS, “MENDONÇA DAS FORÇAS”! E que o lugar no cemitério dos Barracões, onde dormes, seja honrado de harmonia com a tua conduta nessa terra que tanto amaste e onde viveste, feliz, a maior parte da tua vida.
Os porquês da emigração dos madeirenses para Angola
Afinal qual a política que animou os madeirenses a emigrar para a longínqua Angola quando outros mundos havia, mais convidativos? Este capítulo, que deveria constituir o exórdio deste meu escrito preferi inseri-lo aqui. Mais, porque ficaria truncado sem uma pitada relativa à história da Madeira, aqui fica o essencial da intenção em mente.
O arquipélago, nomeado de Madeira, já havia sido avistado pelos navegadores espanhóis que colonizaram as ilhas Canárias, no século XIV. Todavia foi João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1418, e Zarco e Bartolomeu Perestrelo, em 1419, os primeiros a pisar, respectivamente, as inabitadas ilhas de Porto Santo e da Madeira. Como recompensa, pelo achado, estas ilhas foram divididas em três capitanias: Funchal, para Gonçalves Zarco; Machico, para Tristão Teixeira; Porto Santo, para Bartolomeu Perestrelo.
Estes senhores, endinheirados, inteligentes e bons empreendedores, com homens recrutados em Portugal e noutros pontos da Europa, lançam mãos aos trabalhos primordiais: abertura de canais de rega (levadas), construção de paredões em pedra para nivelamento dos poios (socalcos), desmatação e arroteamentos. À medida que os trabalhos avançavam iam sendo ensaiadas diversas culturas: gramíneas, leguminosas, vinhas, cana-doce, árvores de frutos tropicais, mediterrânicos, etc. Foi também introduzido gado, principalmente bovino e suíno. Os resultados foram satisfatórios. Em poucos anos a ilha goza de auto-suficiência alimentar. Zarco e Tristão não chegaram a saborear os frutos dos seus empreendimentos, conquanto os seus herdeiros empenharam-se, com determinação, na continuidade da obra.
Mais tarde o povoamento foi alargado em donatarias a favor dos servidores do rei (D. Manuel I), como recompensa de serviços prestados à Coroa ou à ordem de Cristo. No século XVI foi intensificado o seu povoamento (entre eles um pequeno número de escravos negros e das Canárias) para a preservar de cobiças estranhas. Todavia, em 1801 – 1802, por alguma justificação, foi ocupada pela Inglaterra, e novamente em 1807 – 1814, como prevenção a uma possível investida de Napoleão Bonaparte. Estas ocupações vieram a revelar-se proveitosas, traduzidas no alargamento das relações comerciais entre as duas partes.
A partir dos finais do século XV até meados de XVII, a Madeira viveu períodos de apreciável prosperidade resultante das exportações de trigo, açúcar de qualidade, vinhos afamados, manteiga, pescado, etc., etc. Porém, abandonado o cultivo de trigo a juntar as abundantes produções de açúcar do Brasil e outras partes da América obtidas com o vergonhoso trabalho de escravos – mais barato, portanto – os produtos da Madeira, à excepção do vinho, perdem competitividade. Em consequência instala-se a carestia e a ilha entra em declínio. Para pioria da momentosa situação, a “guerra” entre os irmãos D. Miguel, absolutista, e o fanático e ganancioso D. Pedro IV, liberal, contagiou também a Madeira provocando agitações e, como aconteceu em Portugal, a política foi roubar os bens da Igreja, e dos vencidos miguelistas, em benefício dos oportunistas liberais.
Com o declínio da economia à vista, parte da população – já numerosa – envereda pela emigração para as Américas e África do Sul. Mas, para efectivar o objectivo, tinham que dispor de dinheiro para as passagens. Como nem todos, com o desejo de emigrar, possuíam qualquer pecúlio, os menos capacitados profissionalmente, tiveram que sujeitar-se a trabalhar para os donatários em regime parciário: uma parte para o senhor das terras e quatro para os trabalhadores, alojados em sanzalas. Os proveitos obtidos, mal davam para a sua alimentação.
Ora, com tal modo de vida e sem esperanças de melhores dias, aquela gente, para se libertar do jugo dos seus senhores, facilmente concordou emigrar para Angola aceitando as condições dos contratos que consistiam no seguinte: transporte da Madeira ao Lubango; fornecimento de sementes; alfaias agrícolas; objectos para uso pessoal e para defesa; gado bovino e suíno; atribuição de 2ha de terreno; abono de 30.000 réis no acto do contrato na Madeira; subsídio diário, durante um ano, de 300, 200 e 100 réis para, respectivamente, homens, mulheres e aos menores de 18 anos. Metade destas importâncias nos seis meses seguintes. Como argumentos convincentes os contratadores fizeram-lhes a imagem paradisíaca do Lubango, encobrindo quão difícil seria lá chegar. Sobre o abono de 30.000 réis desconheço se foi por pessoa ou por agregado. Para aquela gente, literalmente carente, confiante na oportunidade oferecida, decerto com um “seja o que Deus quiser”, rumaram ao seu destino. Mas, pelo o que descrevi e o que irei acrescentar, a aventura dos primeiros tempos foi-lhes bem adversa.
Destes subsídios – nem sempre pagos pontualmente – era descontada certa percentagem para a construção do palácio de Câmara Leme!
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Palácio de Câmara Leme - Foto de “Os Colonos ” de Dr. António Trabulo
Para se compreender o valor da moeda réis, vou dar os preços de alguns artigos, por quilo e litro e, entre parêntesis, o custo na Metrópole: açúcar, 600 réis (260); azeite, 800 (360); vinho, 400 (100). O preço médio de um boi bravo (não preparado para tracção) era de 12.000 – 15.000 réis; um boi de carro (de canga), 20.000 – 30.000; um carro bóer, 700.000. Para comparação, os preços de alguns frutos produzidos pelos agricultores, conforme as leis de abundância e escassez, em réis e por quilo eram: trigo 60-100; milho, variedade dente de cavalo (branco) e catete (amarelo), 30-60; batata, 30-50; batata-doce (cinco bicos), alimentação predilecta dos madeirenses, 15-20 réis.
Esclarecimento
Nomes, factos e datas desde o primeiro recrutamento – 1884 – na Madeira até ao último parágrafo, servi-me de apontamentos extraídos das obras “Sul de Angola” e “Terras Altas da Huíla” da autoria de João de Almeida e Carlos Medeiros, respectivamente. Lamentavelmente com lapsos imperdoáveis: Citam nomes e feitos de gente originária de Portugal mas dos madeirenses, mesmo com as consultas aos arquivos com os registos dos colonos, nenhum nome nem local de nascimento foi mencionado. Encontrei apenas números!...
Quanto às peripécias e desenganos sofridos pelos “anónimos” madeirenses, foram-me transmitidos, há 26 anos, por meus primos José e Ricardo, nascidos nos princípios do século XX, que lhes foi contado por seus pais Maria e João Ladeira, que os viveram ou ouviram de quem os viveu.
Ainda e por oportuno, eis algumas passagens do livro “OS MADEIRENSES NA COLONIZAÇÃO DO BRASIL”, de Maria Licínia Fernandes dos Santos: “Na história da Madeira, a problemática da sua participação na colonização do Brasil tem permanecido à margem das dominantes preocupações dos estudiosos. De facto, desconhecemos estudos aprofundados sobre a emigração de madeirenses para o Brasil nos séculos, XVI, XVII e XVIII. Dada a função crucial da emigração em todos os planos (económico, social, demográfico e cultural), esta situação não pode deixar de surpreender. Simultaneamente, sabemos que as condições técnicas da produção de açúcar, (…) depois de testadas na ilha da Madeira, foram transplantadas (…) para o Brasil, assim como as primeiras socas de cana.
Esta singular realidade e a insólita situação, constatada no decurso das nossas pesquisas, de os historiadores se referirem frequentemente ao fluxo emigratório de açorianos para o Brasil (…) quase esquecendo o importante contributo dos madeirenses nesse processo, constituíram para nós um estímulo acrescido na realização deste trabalho.
As nossas pesquisas começaram na Universidade de Coimbra, Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, prosseguindo no Funchal e no Recife, terminando no Rio de Janeiro. Note-se que também Santa Catarina, região que não tivemos oportunidade de visitar, deverá ter documentação de suma importância para melhor conhecimento da presença madeirense, no Brasil. (…) Quantos pormenores não poderíamos revelar se conseguíssemos encontrar alguns desses documentos?
Filhos da diáspora no período áureo da História Portuguesa, os madeirenses manifestam no decurso dos séculos uma tendência bem marcada para a emigração e, de entre os seus destinos, o Brasil. Particularmente significativo foi o fluxo madeirense para o Brasil não só de soldados e agentes da burocracia régia, como também de colonos para o arroteamento das terras e de operários especializados que construíram os engenhos e os colocaram em movimento.
De referir ainda que o embarque clandestino, a partir de 1779, levou muitos madeirenses para o Brasil. A porta mais segura de saída clandestina para aqueles emigrantes eram, então as ilhas Desertas. (…) De preferência a Deserta Grande, onde os deixavam na véspera de passagem de um veleiro que navegava periodicamente entre a Madeira e o Brasil.
Acrescente-se ainda a fuga à justiça por parte de muitos madeirenses que partiram para o Brasil como homiziados.
Finalmente, a intolerância religiosa vai ela, também fomentar a emigração madeirense para o Brasil. Com efeito, observa-se a fixação de muitos cristãos-novos da Madeira na área de Pernambuco, assim como outras famílias, que se transferem para a nova colónia, principalmente ao longo da segunda metade do século XVI, a que não é alheia a decadência da produção açucareira madeirense.
A Madeira foi entreposto, estação de passagem para o Brasil (…). Canas-de-açúcar, espécies vegetativas, gado, tudo foi daí … Que documentos haverá disso? Foram daí as vinte primeiras famílias que fizeram sementeiras de brasileiros … Haverá documentos disso? Até o nome lhe não sabemos …
Infelizmente, continuamos a desconhecer os registos sobre estas famílias. No entanto, estamos certos da presença madeirense no Brasil desde o início da colonização (…). Assim e como os documentos nos indicam, D. João III, em 1530, enviou Martim Afonso de Sousa num navio que, segundo alguns Historiadores, levava cana-de-açúcar da Madeira, para um determinado local do litoral do Brasil (…). Que na ilha da Madeira um cristão-novo pediu licença para embarcar com a esposa e quatro filhos menores (…). A este propósito, parece-nos perfeitamente plausível a hipótese (…) de que terão sido os ocupantes da armada de Martim Afonso que baptizaram o hoje bem conhecido morro Pão de Açúcar, possivelmente porque este morro tem a forma do conhecido Pão de Açúcar Madeirense.
Outro aspecto interessante a realçar e a reforçar a ideia de madeirenses nesta armada é o facto de, na mesma época, ter sido dado o nome de Ilha da Madeira a uma ilha de Guanabara, depois ilha das Cobras. Por outro lado, sabemos que o rei, por alvará de 1515, ordenou ao feitor e oficiais da Casa da Índia que “procurassem e elegessem um homem prático capaz de ir ao Brasil dar princípio a um engenho de açúcar; e que se desse uma ajuda de custo e também todo o cobre e ferro e mais coisas necessárias.
Quem melhor que um madeirense para levar a cabo esta tarefa?
(…) E, nessa época, um quase monopólio desse conhecimento estava nas mãos dos madeirenses. Aliás, o padre João António Andreone publicou uma espécie de manual de agricultura colonial, onde tratava também do açúcar, livro que foi apreendido e destruído, logo após a sua publicação, para que não se divulgasse conhecimentos considerados um exclusivo madeirense”.
Esta breve transcrição – da extensa dissertação do citado livro – vem confirmar o efeito duma reportagem, do grande profissional Brandão Lucas, para a Televisão Portuguesa, nos lugares pertinentes. Lato, claro e despretensioso na narração, valendo-se de documentação histórica e da preciosa colaboração da gente local, mostra os primeiros engenhos de tracção animal (em desenho); os movidos a energia hidráulica (conservados); e as enormes usinas a vapor (ultrapassadas, mas conservadas). E mais imagens sobre feitos militares, cultura e tradições madeirenses.
Texto de Jorge da Conceição Rodrigues

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