quinta-feira, 11 de abril de 2013

CALUQUEMBE – De povoação a vila – Apontamento histórico



No tempo da administração portuguesa
Caluquembe está situado no norte da hoje província, antigamente distrito, da Huíla em Angola, a 1769 m de altitude. Paisagisticamente lembrando, da localidade avistam-se a poente as serras de Cachicacala e mais acima a do Pindiangolo. O rio Sandula nasce exatamente na anhara (planície desarborizada) húmida de Caluquembe.
Criado em 1916 era a sede de um posto administrativo até 1965, um dos três, do concelho de Caconda. Povoação marcadamente comercial com parte alta e parte baixa o que a alongava. A secretaria e residência do chefe do posto administrativo situava-se mais ou menos no meio da localidade assim como a escola primária mais antiga, a nº 45, de Paiva Couceiro; depois foi construída uma outra escola primária na zona alta da localidade. Havia: uma igreja antiga a qual nos anos 60 foi demolida para ser edificada a atual ao lado da anterior; nova sede do posto e administração e residência da autoridade; posto sanitário com enfermeiro permanente e residência; clube recreativo (e beneficente) que também passou a ter sede própria cerca de 1963 a qual foi edificada de raiz embora tivesse de ser reconstruída depois; campo de futebol; armazém/capatazia da junta de exportação/instituto dos cereais depois transferido o armazém para os serviços de agricultura e florestas; posto de correio e telefone em tempos funcionando em loja de comerciante mas que depois ficara adstrito ao posto administrativo; cerâmica da autarquia; cacimbas (poços) diversos substituídos por captação de água municipal, depósito e distribuição; central elétrica para distribuição e iluminação pública e, naturalmente, cemitério.
Todos os anos aconteciam junto ao clube sobretudo as sempre agradáveis festas de Caluquembe com torneios de futebol, provas de tiros ao alvo, pratos e pombos, baile, quermesse, quino, bar/restauração, corridas de bicicletas, etc., chegando até a haver um rally automóvel. Também se realizavam os bailes de passagem de ano, da páscoa e outros.
Nos anos 60 foi construído um parque infantil e feita uma piscina mista que se tornou também num agradável e frequentado local de lazer e encontro social da terra durante anos. Quanto a cinema, houve tempos de sessões esporádicas de “cinema ambulante” mas que mais tarde passaram a ser regulares, ao domingo, com filmes projetados no clube. Neste também aconteciam ocasionais espetáculos de teatro, variedades e outros.
Não queremos deixar de citar alguns professores, os mais antigos, que lecionaram na escola primária 45: Maximina Fernandes, Cecília Dias, Lourdes Veiga, Ilda Tavares, Lourdes Alpoim, Fátima Santos, Joaquim da Costa Gomes, este sendo músico de vários instrumentos também foi inesquecivelmente um divulgador da música instrumental e coral e estimulador da sua aprendizagem na localidade, Hermengarda Moura, “Lia”, Dulce Tenreiro, Aldina e Silvina Gonçalves e vários outros depois, quer nessa primeira escola, quer na outra mais nova.
No final do século XIX fora fundada por Héli Chatelain a missão evangélica em local próximo ao que viria a ser a povoação de Caluquembe, que chamar-se-ia de filafricana com hospital missionário e leprosaria, hospital de referência que teve (e tem) importante e notável ação médica, cirúrgica e profilática. Nomes como os dos drs. Rodolphe Bréchet, este um eminente leprólogo a nível mundial, Lennart e Elisabeth Hoffmann-Straüb, Julião Kirb e outros, não só médicos-cirurgiões como enfermeiros, mas também vários missionários suíços e não só, ali trabalharam ou dedicaram parte ou toda a sua vida missionária e profissional pelo que ficaram ligados historicamente à missão em si mas do mesmo modo a Caluquembe e à região. Na vila também foi aberto um salão evangélico com cultos dominicais.
A autarquia paralela ao posto administrativo era a junta local cuja presidência o chefe de posto, mais tarde, chamado administrador de posto, acumulava. Foram vários os chefes/administradores de posto que chefiaram o posto administrativo de Caluquembe. Recordemos muitos deles: Gomes Ferreira, Costa, Lelinho, José Afonso Lomba, Deillot, Figueiredo, Manuel Coelho da Graça, Manuel Antunes da Silva, Leonildo S. B. de Magalhães Varandas, Adriano da Costa Fernandes e o último, isto é, até à elevação a concelho, Amílcar Largo Antunes. Houve também alguns aspirantes/adjuntos de administrador de posto.
A importante estrada entre Lubango e Huambo atravessa a localidade e na vila começa praticamente outra estrada, a de Caluquembe à Ganda. Assim, as populações residentes e passantes eram servidas por diversas carreiras mistas de carga e passageiros. Uma pista de aviação em terra batida para avionetas era (é) um equipamento a assinalar.
À vista de Caluquembe existia (e mantém-se) a missão católica de Santiago, masculina e feminina, com grande igreja; possuía escolas, moagem, enfermaria e carpintaria. De recordar o suíço padre Otto Balmer seu fundador em 1962 que passou grande parte da sua vida sacerdotal missionária nessa e noutras missões da área, nomeadamente na do Cola, para além de paroquiar na própria igreja da povoação. Em 1970 a paróquia foi provida de pároco permanente a residir em casa paroquial.
Vários sipaios (força policial administrativa) chefiados por um cabo prestavam serviço no posto administrativo depois administração do concelho assim como estavam ligados ao posto/administração algumas regedorias e sobados e respetivas autoridades, regedores e os tradicionais sobas (e destes dependiam os seculos). As populações e autoridades de Caluquembe receberam várias visitas de governadores de distrito da Huíla e governadores-gerais de Angola. O presidente da república portuguesa Craveiro Lopes em 1954 passou, sem se deter contudo, por Caluquembe ao regressar em cortejo automóvel de visita ao vizinho colonato agrícola de Caconda.
Em 1965 Caluquembe foi promovido a concelho ficando com quatro postos administrativos: posto sede, Chicomba (desanexado de Caconda), Negola (desanexado de Quilengues) e Calépi (mas este nunca funcionou). A junta local passou a câmara municipal. Foi seu primeiro administrador e presidente da câmara por acumulação Fernando Gomes Maurício; seguiram-se-lhe Eduardo Matoso Pio, Norberto Mário Fernandes, Bértilo Teófilo Coutinho e o último, ou seja, até 1975, Mácara Gomes, coadjuvados naturalmente por adjuntos de administrador de concelho e outros funcionários administrativos.
Por altura de 1971 foi fundada a escola preparatória facto que veio incrementar muito a educação no concelho e dar uma nova vida estudantil e de professores à vila. Para a sua criação contribuíram financeiramente as duas missões, evangélica e católica, e alguns comerciantes e outros profissionais do concelho, totalizando essa contribuição 50% da despesa de instalação da escola, o que é notável. Foram criadas também: delegacia de saúde mas nunca provida de médico permanente!; zona pecuária; estação dos CTT autónoma da administração do concelho; secção concelhia do movimento nacional feminino; para além das funções que eram inerentes à administração do concelho tais como notariado, julgado municipal, etc.
Houve duas moagens com moinhos de martelo. O Banco Pinto & Sotto Mayor teve uma agência em Caluquembe que manteve até 1975 e também houve correspondentes de outros bancos. Havia: três postos de abastecimento de combustíveis e lubrificantes; duas pensões, a pensão central de Ruas da Silva, que era uma referência, e depois também a de Armindo Mendonça; alguns bares/restaurantes; talho; duas padarias; oficina de reparação automóvel; sapateiro; alfaiates; barbeiro ambulante mas mais tarde funcionou uma barbearia fixa; etc.
Na povoação, depois vila, a construção de novos estabelecimentos e habitações foi-se efetuando ao longo dos tempos aumentando-a pois era sobretudo uma localidade comercial com muitas lojas como se dizia de comércio misto onde se vendiam mercadorias mas também se compravam os produtos, de que o milho era predominante, dos camponeses das inúmeras aldeias da zona e cujos terrenos cultivavam. A listagem dos comerciantes que estiveram estabelecidos em Caluquembe ao longo de décadas seria enorme e não cabe neste apontamento; e embora este escrito se centre sobretudo no perímetro da povoação/vila, por curiosidade, cita-se que na zona do Calépi, a pouco mais de 20 Km, havia pequenas mas muito produtivas plantações de café, assim como havia uma grande fazenda de café da família alemã Hey num local designado por Coporolo.
Hoje
Caluquembe é sede dum município muito populoso; estima-se que este tenha uma população de 250000 habitantes. A sua área é também assinalável (atribui-se 4249 Km2), sendo um dos 14 municípios da província da Huíla, e é formado pelas comunas sede, Ngola e Calépi. Faz limite com outros 8 municípios, dois dos quais (Ganda e Chongorói) da província vizinha de Benguela, aliás onde Caluquembe também chegou a pertencer até aos anos 30. Na internet poder-se-á encontrar muito do que é Caluquembe na atualidade.
Mas este apontamento dedicou-se sobretudo, repete-se, à própria povoação/vila de Caluquembe e seu desenvolvimento até 1975, primeiramente sede de posto administrativo depois sede de concelho. Agradeço as ajudas que me deram meus familiares Jorge, Higino e Paula Rodrigues.
Júlio Henrique Rodrigues
 
clip_image002Caluquembe antigo - Casa e loja de José M. Rodrigues
clip_image003Caluquembe - Escola Primária 45
clip_image005Caluquembe – Zona baixa da vila (1972)
clip_image007Caluquembe – Residência do administrador
clip_image009Caluquembe – Posto depois Administração

Este artigo foi PUBLICADO NO LIVRO DO 35º CONVÍVIO “OS INSEPARÁVEIS DA HUÍLA” (Caldas da Rainha - 7 e 8.julho.2012)
 
 
“A propósito e no seguimento do artigo anterior e para melhor informação fotográfica do que era Caluquembe no tempo antigo, tomamos a liberdade de acrescentar neste blogue, com o acordo do autor do artigo, algumas fotos que beneficiarão o Apontamento histórico”.    
 
 
imageCaluquembe –Procissão


 Caluquembe –Torneio feminino de tiro ao alvo

imageCaluquembe –Torneio masculino de tiro ao alvo



Caluquembe –Rally automóvel

De pe Martinho, Orlando Mendes, Matias, Adão, Camilo Santos, Agostinho sentados Joaquim, não sei Antonio Santos Helder Mendes, Joaquim Ruas
Equipa Futebol – Clube Recreativo de Caluquembe de pé, da esquerda: Martinho, Orlando Mendes, Álvaro Matias, Adão Rodrigues, Camilo Santos e Agostinho Henriques. Sentados: Beto (sobrinho de António Costa), Hernani Mendes, António Santos, Helder Mendes e Joaquim Ruas
(Foto da colecção de Ze António Rodrigues)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Empresários e autarcas angolanos visitaram o concelho de Moura

 

Empresários e autarcas angolanos visitaram o concelho de Moura
2013-04-02

Uma delegação de 14 empresários, autarcas e técnicos municipais do Sul de Angola deslocou-se ao concelho de Moura de 26 a 28 de março, tendo efetuado visitas e estabelecido contatos com entidades locais.
Foram assinados três protocolos visando reforçar a cooperação entre Moura e Angola em diferentes áreas.

A missão angolana, convidada pela Câmara Municipal de Moura, foi chefiada pelo vice-presidente da Associação Industrial de Angola, Eliseu Gaspar, e integrou empresários das províncias da Huíla e do Huambo, sobretudo ligados à agricultura e à pecuária, mas também aos setores de hotelaria, comércio e panificação. Um dos empresários, Tomás Segundo, é conselheiro do Governo Provincial da Huíla. Fez também parte da delegação o diretor geral da Cooperativa de Criadores de Gado do Sul de Angola.

Com a delegação empresarial viajaram igualmente o administrador e funcionários do município de Caluquembe, na Huíla.

Os angolanos visitaram a Central Solar Fotovoltaica de Amareleja, a empresa municipal Lógica, a cooperativa Comoiprel, o Parque de Feiras e Exposições de Moura e a herdade da Contenda. Visitaram também a Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos e diversas explorações agro-pecuárias na freguesia de Safara e na zona de Moura, ligadas à produção de azeite, vinho, cereais e gado.

Na Câmara de Moura, a delegação foi recebida pelo presidente da autarquia, José Maria Pós-de-Mina, e por membros do executivo, pelo presidente da Assembleia Municipal, José Gonçalo Valente, e por técnicos da autarquia e responsáveis das empresas municipais.

A Câmara de Moura e o Município de Caluquembe assinaram um memorando de entendimento, perspetivando uma futura geminação, e a Comoiprel e a Lógica estabeleceram protocolos de reforço da cooperação com a Associação Industrial de Angola.

A visita a Moura de empresários do Sul de Angola, além de ter possibilitado o intercâmbio de experiências, abriu novas perspetivas de cooperação económica e técnica entre as duas regiões.

Fonte: Beja Digital

quarta-feira, 13 de março de 2013

Missão Católica de Caluquembe

 

 

missao catolica

missao catolica 1

Fotos da colecção de amigos e familiares

A Missão Católica de Caluquembe, foi fundada em 1962, pelo Padre Otto Balmer.

A Missão de Caluquembe, era um centro escolar, com  internatos para rapazes e raparigas. As irmãs Coracionistas  dedicavam-se  à formação feminina. Existe também uma escola e um posto de saúde.

Em 1980 devido à guerra, foi saqueada.  Os padres e irmãs foram obrigados a abandonar a Missão.

Em 1981, depois de uma intervenção dos missionários Saletinos  junto do governo de Luanda, a Missão foi devolvida.

Em 1994, sofreu nova ofensiva Militar, voltou a ser saqueada e mais uma vez,  durante dois anos ficou  sem padres. As irmãs Coracionistas permaneceram na Missão e com a ajuda dos evangelistas,  fizeram um trabalho notável .

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Bíblia em Português

Bíblia em Umbundo

Saletinos-Angola

Saletinos em Angola

Missionários de Nossa Senhora de La Salette.

terça-feira, 5 de março de 2013

Caluquembe terra que nos viu nascer

 

1Caluquembe 1974

 

"Que seria de nós
se não tivéssemos memória?...
Esqueceríamos as nossas amizades,
os nossos amores, as nossas lutas,
os nossos trabalhos. (...)
A nossa existência reduzir-se-ia
aos instantes sucessivos
do momento actual
que foge sem cessar.
A nossa vida é tão vã que, no fundo,
ela não é mais que o reflexo
da nossa memória."

 

Chateaubriand

2

Caluquembe 2003

Advertência

Este texto, refere-se ao tempo da administração portuguesa (Colónia, Província e Estado).  São citados pelos nomes que tinham até à data da independência.

CALUQUEMBE, concelho situado a 13, 78º de latitude sul e 14,68º de longitude este, entre-os-rios Sandula e Etonga, a 1 769 metros de altitude e de clima subtropical.

Foi criado pela Portaria 14 061 de 13.12.1965, com Câmara Municipal. É limitado a norte pelos rios Cubal da Hanha e Catumbela; a oeste pelos rios Cuilo e Qué; a este pelo rio Cué e a sul pelos rios Cerem e Qué.

Outros rios: - Cuando, Tambe e Cucala.

Com uma área de 4 249 km2, e uma população de 68 299 (1970).

Economia:

Agricultura – Milho, trigo, feijão, café, massango, massambala, batata, batata-doce, fruta e hortaliça. Algum sisal e café arábica.

Pecuária – Gado bovino, suíno e caprino. Aves de capoeira.

Industria – Salsicharia (Vila Branca) e cerâmica.

Comércio local importante

Oficinas e postos de abastecimentos.

A vila é atravessada por carreiras de camionagem e tem pista de aterragem.

Missões católicas (Cola e Santiago); a Missão Evangélica Filafricana, (protestante) tem hospital, escola de monitores de agricultura, primária e bíblica.

A vila de Caluquembe tem Igreja, Clube Recreativo e Desportivo, Parque Infantil c/piscina, Edifício da Administração e Correios; Hotel, Pensões, Estações de Combustíveis (Móbil, Texaco e Fina). Posto Sanitário, energia eléctrica e oficina mecânica.

Turismo:

Nascente do rio Coporolo, próximo de uma fazenda que era propriedade de um alemão de nome Hey.

“Embala” dos sobas, situada num monte chamado Nandu e Etonga.

Montes azuis da serra da Hanha, Pidiangolo.

Termas do Tambe, com águas sulfurosas quentes (60º C.), indicadas para tratamento de reumatismo e outras doenças.

Caluquembe, foi posto do concelho de Caconda da então província de Benguela, criado pela Portaria Provincial nº 233 de 8.12.1916.

O foi constituído concelho em 1965.

Abrangia além do da sede, os seguintes postos administrativos:

Negola, situado próximo do rio Cussece, a 1 595 m de altitude e de clima subtropical.

Economia:

Agricultura - Milho, trigo, feijão, citrinos, etc.

Pecuária - Gado bovino, suíno e caprino.

Comércio local.

Pensão.

O posto é atravessado por carreiras de camionagem.

Cursos de água: - Qué e Cussece, Cuvelai, Chiba com lago e Chingue.

Foi posto do concelho de Quilengues, passando em 1965 ao concelho de Caluquembe.

Dista por estrada, 56 km de Caluquembe, 57 km de Quilengues, 150 de Sá da Bandeira.

Na serra de Negola (N’gola) existe uma muralha fortificada de interesse (arqueologia).

Outros lugares: - Gando, Chinuangolo, Camucuio e Java.

Calepe ou Calepi, está situado entre-os-rios Cuílo e Qué.

Clima subtropical.

O posto foi criado em 1974.

A sede do posto, dista por picada, 23 km da sede do concelho.

Rio – Cussuca.

Outras povoações do concelho:

Vila Branca, situado junto do rio Qué onde se localiza uma salsicharia, comércio e pensão; Vatuco, Cucala, Cacomba, Gando, situado entre os rios Cussece e a nascente -do Cuvelai; Cuando, situado junto da nascente do rio Cuando; Chinuangolo, Capele, Cambunde, Bomba, situado junto do rio Qué; Caála, Chilunda, Tambe, situado junto do rio Tambe ou Tambi; Nonduo, Chituto, situado junto do rio Cuvelai.

Comerciantes e outras pessoas de Caluquembe (alguns):

José Maria Rodrigues, Camilo Reis Rodrigues, Jorge Rodrigues, Alfredo Henriques, Alfredo Oliveira Tavares, Francisco Andrade, Victorino Rodrigues, Luís Vilhena, Ruas da Silva. Adão Rodrigues, Adorindo Teixeira, Elísio Silva, Eusébio Dinis, Saúl, Gomes, Gabriel Caíres, Domingos Nunes, Manuel Nunes, Abílio Correia, Mário Baptista, Armando Baptista, Paiva (Rei Baco) António Santos, Costa, Carlos de Freitas, Armindo Mendonça, João Mendonça, Jordão, Cardoso, Agostinho Henriques.

Gando: - Emídio Rodrigues e filhos.

Chinuangolo: - António Rosa Rodrigues, Álvaro.

Chituto: - Toneco Monteiro.

Calepi – José da Silva Carvalho, Orlando Mendes, Acácio Castilho, José Godinho, José

Correia, etc.

Vatuco: - António Ferreira, Costa, etc.

Bomba: - Tenrreiros.

Vila Branca: - António Duarte Moura e filhos (Salsicharia, Agricultura e Comércio, mais tarde, vendida à Companhia Trancoso Vaz de Benguela); Moreira da pensão, Pais Machado e filhos, etc.

Cuando: Manuel Jesus.

Cacomba: - Gouveia, Caldas.

Negola: - Floriano, Toni, Cravo, Adão Rodrigues, Ventura.

Funcionários administrativos:

Posto administrativo (-1916-1965)

Chefes de posto (alguns): - Ferreira, Costa, Lélinho, Graça, Antunes da Silva, Leonildo de Magalhães Varandas, Adriano da Costa Fernandes.

Aspirantes (alguns): - Ângelo Rodrigues dos Santos.

Concelho - (1965-1975):

Administradores: Maurício, Matoso Pio, Norberto Fernandes, Coutinho, Gomes,

Secretários: Lourenço, Barreto, Largo Antunes, Magalhães, Mendes.

Aspirantes: (alguns) - Agostinho Queirós Ramada, Alexandre.

Funcionário (alguns) – José Amador Reis Rodrigues, António dos Santos Júnior, Van der Keller, Gamboa, Bandeira, Rocha, Antunes, Amélia Andrade, Sofia, etc.

Texto de Gino Rodrigues

domingo, 3 de março de 2013

Fotos Antigas de Caluquembe

 


corrida de bicicletas 1966

Corrida de Bicicletas em 1970

Venda de cereais junto a loja de Jose Maria Rodrigues

Venda de cereais junto a loja de Jose Maria Rodrigues

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Casa e Loja de José Maria Rodrigues

CASA AVÔ2

Casa, Loja, e armazéns de José Maria Rodrigues

2

Casa de Jorge e Lucília Rodrigues

1

Casa e loja de Jorge e Lucília Rodrigues

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Festas de Caluquembe

Fotos da colecção de amigos e familiares

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Hospital Geral de Caluquembe é ampliado



Fotografia: Jornal de Angola
O hospital de Caluquembe, norte da cidade do Lubango, na Huíla, vai ser reabilitado, ampliado e equipado com aparelhos modernos ainda este ano, num investimento do Executivo, avaliado em mais de quatro mil milhões de kwanzas.
O reverendo Diniz Marcolino, presidente da Igreja Evangélica Sinodal de Angola (IESA), instituição que tutela o hospital, disse que o projecto está inserido num programa que contempla a construção de um centro de reabilitação e aconselhamento de alcoólatras e toxicodependentes.
O pastor assegurou que o programa foi aprovado pelas estruturas centrais e já foi publicado no Diário da República, salientando que a implementação do mesmo vai ser feita por fases.
Diniz Marcolino salientou que o Hospital de Caluquembe tem capacidade para internar 240 doentes e oferece quase todos os serviços, que são assegurados por 140 enfermeiros de nível básico e médio. Com a reabilitação, ampliação e modernização, a unidade vai duplicar a capacidade e melhorar vários serviços, como o bloco operatório, raio X e hemoterapia.
As obras incluem a construção Pediatria e Maternidade. As vias de acesso à Missão Evangélica, onde está instalado o hospital de Caluquembe, vão também ser reabilitadas. O programa contempla ainda a reabilitação do Instituto Bíblico de Caluquembe, o internato, centro de nutrição, a escola primária e todas as infra-estruturas antigas que funcionavam com a acção social da igreja. O responsável da IESA adiantou que a empresa encarregue das obras já procedeu a estudos pormenorizados para a efectivação do projecto.
O presidente da IESA disse que os responsáveis da igreja e da direcção provincial da Saúde da Huíla envidaram esforços para colocar um médico residente no hospital.
“Temos recorrido muito à cooperação internacional e, neste caso, existe um médico chadiano residente, que ajuda a coordenar a equipa de enfermeiros do hospital de Caluquembe”, disse. Dinis Marcolino lamentou o facto de muitos jovens, depois de formados na área de medicina, se recusarem a trabalhar no meio rural.
O número de médicos e enfermeiros é insuficiente para atender ao grande número de pacientes, situação que se pode alterar, pois existe um plano para reforçar o corpo clínico. Duas novas escolas do ensino primário, com 12 salas cada, vão ser construídas este ano na Missão Evangélica Sinodal de Angola, no município de Caluquembe, com fundos do Programa de Investimentos Públicos. O reverendo Diniz Marcolino assegurou que a construção das escolas está inserida no programa de reabilitação das infra-estruturas da Missão Evangélica da IESA, gizado pelo Executivo.
O mesmo programa contempla também a construção de um novo internato de alunos da missão.
Diniz Marcolino disse que a parceria entre as igrejas e o Executivo na área social tem sido benéfica, com resultados visíveis na formação académica e técnico-profissional dos jovens e na assistência sanitária às populações. A IESA tem também uma universidade, que já trabalha há dois anos, um projecto de apoio ao Executivo em matéria de educação no escalão superior.
Dentro de dois anos, a Escola de Saúde da IESA, em Caluquembe, vai colocar no mercado de trabalho os primeiros técnicos médios.

Faculdade de Medicina

A Igreja Evangélica Sinodal de Angola prevê a construção nos próximos anos, de um novo instituto médio de saúde, com maior capacidade, que vai evoluir para uma Faculdade de Medicina.
O reverendo Diniz Marcolino disse que foram já dados passos significativos para que a referida Faculdade de Medicina possa funcionar dentro do hospital.
A par disso, um projecto agrícola, denominado “Soja para todos”, começa a ser implementado este ano pela direcção da IESA, através do Departamento de Desenvolvimento Comunitário.
O projecto vai ser implementado nos municípios de Caluquembe e Chicomba, em parceria com a direcção provincial da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, no quadro do Programa de Combate à Pobreza.
Diniz Marcolino informou que as missões daquela denominação religiosa possuem terras aráveis, antes utilizadas para o sustento dos missionários, onde a produção vai ser revitalizada, em parceria com o governo, para diversificar a dieta alimentar das famílias.  O Governo Provincial da Huíla já distribuiu tractores e respectivas alfaias, acrescentou.
Fonte Jornal de Angola

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Tema: Hospital de Caluquembe como Centro de Referência
O Hospital de Caluquembe IESA constitui uma força na parte sul do Pais tem valor e tem uma missão. Tem um fundamento enraizado em Mateus 5:16, Mateus 9:35 Lucas 9:11 Estes elementos visão, força e missão foram erguidos desde o principio da historia da OMIESA e estão contemplados no programa estratégico da OMIESA 2008/2014.
Historial
O hospital de Caluquembe como a primeira instituição clínica da IESA começou com umas duas casotas e uma casa mortuária na Missão trabalhando ali algumas enfermeiras e o Senhor Francisco Salomão já encontrado.
Na sequência do quadro missionário e no alvo de servir o Povo Angolano na sua integra em 1919 doze anos depois chegou em Caluquembe – Angola, a primeira enfermeira de nome Rosa Herzog de nacionalidade Suíça para prestar cuidados de saúde primária e curativos. Quando volta da Suíça em gozo de ferias veio no estado de casada com o missionário Guillod Henri e decidem ir para Ebanga (vila Mariano Machado) actualmente Ganda.
Com as enfermidades que prevaleciam no seio do Povo, a Igreja não cruzou os braços aproveitou a presença dos delegados vindos da Missão Suíça para apresentarem as suas preocupações no acampamento que houve em Giraúl onde houve Baptismos. Essa era uma importante delegação enviada pela então Missão Filafricana na Suíça e que vinha propositadamente fazer o levantamento cabal no campo chefiada pelo Pastor Henri Monnier, em representação do presidente da Missão DR. Riller de Benoit.
É assim que prometem a Igreja de KUKALA um médico. Este facto de grande importância e histórico na IESA concretiza-se em 1943 com a chegada do DR. Rodolpho Auguste Bréchet., médico polivalente impulsionador e de estima respeitável. Ele veio dar mais ênfase ao valioso departamento de Saúde da IESA que acelerou o processo de Evangelização, de edificação, da Igreja, formação de quadros, fundação das missões e faz conhecer o nome de Caluquembe tanto Nacional, como Internacional até hoje e é o espelho da IESA. “”Dizia um governante em 13 de Setembro de 2009 que a unidade sanitária pertencente a Igreja Evangélica Sinodal de Angola – IESA devido o número de atendimentos, a sua dimensão, que valeu o titulo de Hospital de referência a nível da região Sul.”” (Fonte jornal de Angola) Ele serve não só 230 milhões de habitantes da região e uma extensão de 44 mil quilómetros quadrados e é habitado sobretudo por uma população camponesa.
O Hospital foi construído até 1947 e inaugurado no tempo de Jubileu e a sua ampliação foi em 1972. Quem fala da Obra médica da IESA fala do Hospital de Kaluquembe, que naquela altura teve a sua sustentabilidade incontestável a partir da Missão na Suíça, dos parceiros Internacionais até ao êxodo dos Missionários do Pais em virtude da guerra que assolou o nosso Pais até 1992.
A Crise

De 1993 -1994 Outubro a Obra médica experimentou uma dura crise jamais imaginada. A Igreja tinha que fazer manobras exercitar outros recursos, solicitando ajuda a outros parceiros e que pela graça de Deus muitos responderam positivamente dando a sua mão e pelo que o Hospital ressuscitou e vive ate a data. Depois de um trabalho árduo o Dr. Paulo Manuel trabalhou no lançamento com adquirir e ingressar o pessoal no OGE (Orçamento Geral do Estado). O Governo Angolano através do Ministério de Saúde aceitou contemplar o Hospital de Caluquembe (IESA) com o orçamento geral do Estado, verba essa que cobre cerca de 70á 80% dos salários dos trabalhadores despesas correntes do hospital ficando ainda de fora pessoal não abrangido pela dotação do OGE formação de Técnicos na Escola Técnica e suas respectivas despesas.
Alguns destaques da Obra Medica (Hospital) IESA
Ø 1927 Construção de Ebanga 1a representante da Obra médica na Ebanga Da Rosa Guillod.
Ø 1930 Construção de Sussangue
Ø 1946-1947 Jamba Cubal 
Ø 1950 Morte do Missionário André Rosselet Henri em Quilengues por correntes de água para salvar o enfermeiro doente com trombocitopenia
Ø 1955-1959 Construção de Kassua
Ø 1961- Nondumbo 1979 Rapto de Edmeé Cottier
Ø 1965-1967- Lomolo –Bocoio Rapto da enfermeira missionário Ghandi Marinova junto alguns enfermeiros 1977
Ø 1982-1989 Envio de Candidatos para medicina –Luanda (4)
Ø 1999 – Benguela A enfermeira representante da Lepra e EBD crianças Therese Fuhrer é morta
Ø 1993-1994- Destruição e abandono da Missão de Kaluquembe assim como o Hospital de Caluquembe destacou-se a enfermeira Elisabeth Gafner que por vontade de Deus preferiu ficar e sofrer com os Angolanos. (Valoroso combatente)
Ø 1993-1995 Construção do vale do Cavaco (Deposito de medicamentos
Ø 2001-2002-Oferta do Gerador de 25KVA pela Jembas e Assistência Técnica (Kohler) e contentor de roupa
Ø 2004-Bolsa Samaritanos ofereceram um motor de energia e contentor de medicamentos e material médico e comida
Ø 13/09/2009 Hospital de kaluquembe na Huíla ganha Pediatria construída em raiz no âmbito do Programa de Melhoria e Aumento da Oferta dos Serviços Sociais Básicos á População (PMAOSSBP) com objectivo reforçar o atendimento ás crianças carenciado deste Município e não só.
Ø 2010/04 Oferta de um Gerador de Luz de 65KVA pelo Vice-governador para Esfera Social (Velho Cunha)
O renascer do Hospital de Caluquembe
Enquanto não há Médico permanente dois ou mais médicos se comprometem a ir ao Município para cuidarem de casos especiais como centro de referência onde passou muitos médicos e enfermeiras de renome. “” Uma homenagem particular aos Missionários estrangeiros que mesmo em guerra não deixaram de cá vir para prestarem a sua solidariedade dizia um Governante””
As Parcerias entre Organismos e Governo deram grande incentivo para manter este Hospital, centros médicos e Postos de Saúde sem ruptura de stocks, os meios de comunicação em dia.
Hospital de Kaluquembe aos 19 de Agosto de 2010
O Director do Hospital
Nelson Andre
Tc. Medio de Saude





































sábado, 15 de setembro de 2012

Umbundo

 

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Gramática

de Umbundo

ou

língua de Benguela

José Pereira do Nascimento

Médico da Armada Real

   Lisboa Imprensa Nacional –1894
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Clique na imagem e oiça a bíblia em umbundo





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Dicionário Umbundu – Português

Provérbios angolanos

Ombembwa Angola


 

 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Voltar – Memória do Colonialismo e da Descolonização - SARAH ADAMOPOULOS


 
SARAH ADAMOPOULOS


Um livro de História e de memórias, de discursos e identidades múltiplas.   Em 1975 começaram a voltar a Portugal aqueles que ficaram para o nosso imaginário e a nossa história recente como «os retornados», mas que, na verdade, em muitos casos, não «retornaram» pela simples razão de que nunca de cá...
 
Um livro de História e de memórias, de discursos e identidades múltiplas.
Em 1975 começaram a voltar a Portugal aqueles que ficaram para o nosso imaginário e a nossa história recente como «os retornados», mas que, na verdade, em muitos casos, não «retornaram» pela simples razão de que nunca de cá haviam saído, nascidos e criados que foram em África, de famílias que para lá haviam emigrado por vezes há várias gerações.
O regresso deste contingente, calculado em perto de meio milhão de pessoas, foi segundo uns traumático, segundo outros exemplar. Um problema social e uma indiscutível riqueza para a sociedade e a economia portuguesas. Passadas quase quatro décadas, Sarah Adamopoulos foi em busca de memórias dos que regressaram das várias ex-colónias portuguesas e registou testemunhos e imagens do Portugal de então que permanecem muito vivas. São retratos de corpo inteiro de famílias, vidas e mudanças que a todos tocaram, de diferentes formas e com diferentes graus de desilusão e esperança. A esperança continuará, de novo ou ainda, virada para essa África? Certo é que a terra que tão marcada está ainda na identidade de tantos nos é de novo apontada como destino de um futuro e de uma prosperidade uma vez mais adiados.
Numa época em que, como reporta Diana Andringa no Prefácio, a tomada de consciência dos povos africanos criou uma identidade irrevogável em cada cidadão, Voltar é um título que ecoa em duas direcções e surge para muitos como uma pergunta. Estarão fechadas as feridas deste regresso?






terça-feira, 7 de agosto de 2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

22º PIQUENIQUE DE FAMÍLIAS AMIGAS DE CALUQUEMBE



CALUQUEMBE princesa da Huíla… 

 
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Como é nosso hábito desde 1990, irá realizar-se precisamente no dia 1 de julho de 2012 – 1º domingo do mês - o convívio piquenique anual – o 22º - no sítio dos pinheiros mansos na zona da Lagoa de Albufeira (EN 377, cerca do Km 30), a partir do início da manhã e até à tardinha...

Para além dos “ingredientes” comestíveis a partilhar entre todos (peixe, carne, saladas, doces, bolos, frutas, água pª beber, bebidas diversas, café e açúcar, etc. que se pode combinar antes entre convivas) e do material próprio de piquenique (talheres, pratos e copos apropriados, saca-rolhas, sabão, fósforos, carvão, fogareiros, sacos pª lixo, água pª lavagens, jornais e revistas, fotos antigas, câmaras para fotografar/gravar, música, bola, etc.) permitam-nos relembrar que faltam sempre mesas e cadeiras de campismo para um conforto geral; não se esqueçam…

Contamos todos com a presença de muitos. Será um dia bem agradável certamente.

Compareçam. Levem familiares e amigos.

EM MEMÓRIA: Partiu…o Constantino Vilela Rocha sempre presente nos convívios e continuará a estar… Recordemo-lo com grande saudade e amizade inapagáveis.

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Lembrança: precisamente no fim de semana seguinte, 7 e 8 de julho, realizar-se-á nas Caldas da Rainha o 35º Convívio Anual de “Os Inseparáveis da Huíla”, outra jornada de grande interesse, convívio e emoção. Se nunca foi/fostes ou se já não vai/s há muito, não perca/s igualmente.















terça-feira, 22 de maio de 2012

Eminente desaparecimento de espécies animais no país

 

22-05-2012 | Fonte: RNA

A caça ilegal está a provocar o desaparecimento de algumas espécies animais no Kuanza-Norte, pois o abate chega a ser maior que a reprodução, apurou a RNA.
A caça é feita sem escolha nem medida, fêmeas em estado de reprodução e crias são abatidas naquela região.
O chefe de brigada do Instituto de Desenvolvimento Florestal no Kwanza-Norte, Guilherme Sebastião da Costa, disse que o Macaco tem sido nos últimos tempos o alvo preferencial dos caçadores furtivos.
“Estamos em crer que a frequência de caça é maior em relação a capacidade de reprodução dos animais. Começamos a admitir a hipótese de extinção dessas espécies. Depois da Seicha, eles têm como preferência o Macaco, mesmo sendo que aqui não é muito normal fazer o uso do Macaco, mas é verdade que está a ser caçado, comprado e consumido”, disse.

Fonte: AngoNotícias

segunda-feira, 30 de abril de 2012

População aposta forte na produção de café

 

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A produção do café, no município de Caluquembe, província da Huíla, está a registar um enorme interesse no seio das famílias.

 

Jornal de Angola clique e saiba mais

domingo, 22 de abril de 2012

Odisseia de uma gente - I

 

CARRO BOER

Réplica à escala de 1- 5 m (construído por Jorge Rodrigues )

 

1884 – PRIMEIRA PARTE
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Duma Ilha para um continente

A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçâmedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.

Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.


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Navio Índia – Internet Álbum de Navios Portugueses

Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla. 

 

 

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Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo Marquês de Sá da Bandeira

 

Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.

Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.

 
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Da capa do livro: "Escravos e camponeses no sul de Angola: 1840-1826
   
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Da capa do livro: "Escravos e camponeses no sul de Angola: 1840-1826

 


Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.

Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.

Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.

Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…

Do mar para a serra – penosa viagem

Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.  


CARRO BOER
Carro boer puxado por várias juntas de bois (Serpa Pinto)
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Carro boer puxado por várias juntas de bois
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Carro boer atravessando o Caculuvar
 

Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.

 
PORTELA DO BRUCO
PORTELA DO BRUCO “ A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
 

Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.

A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.

Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.


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Rio Caculuvar (foto internet de de João M. Neto)
      

Mais desencantos – Barracões

 

Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.  


CASA DE COLONOS CHIBIA
Casa de colonos – Chibía

Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas com malói.

Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.

Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.

Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.

    
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Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:

  

 

NESTE LOCAL INSTALARAM-SE

 

OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES

 

 EM 1885

  
BARRACÕES 8 A
 
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Monumento aos colonos madeirenses Foto de Armindo Ferreira da Colorama Luanda

A 19 de Junho de 1885, o barco de guerra “África” lança âncora na baía de Moçâmedes. A bordo um contingente de 336 emigrantes, provenientes da Madeira, com destino, tal-qualmente à primeira colónia, ao planalto da Huíla. Este contingente passa a ser conhecido por “Segunda Colónia de Madeirenses”. Ao desembarcarem, para descrédito e vergonha dos governantes da vilória de Moçâmedes, assiste-se à repetição do episódio ocorrido com a primeira colónia sete meses antes: não foram providenciados atempadamente os meios de transporte para o destino final. Motivo? Porque o governo pagava (quando pagava…) tarde e mal os serviços prestados pelos transportadores. Daí os proprietários dos carros – na maioria bóeres – só aceitarem trabalhos mediante pagamento adiantado.

Sem outra alternativa o governador viu-se obrigado a entrar em negociações com os “temidos” bóeres da Humpata. Ultrapassado o delongo impasse, os carros desceram a Moçâmedes; e a 1 de Agosto, após uma enervante espera de 40 dias, a colónia, em conjunto, enceta viagem em caravana formada por 30 grandes carros-bóer.

O percurso desta segunda colónia, comparado aos dramas da primeira, contados nos capítulos anteriores, pode-se considerar sofrível. Em Moçâmedes, essa gente, embora mal acomodada, ali e até ao sopé da Chela, graças à época de cacimbo, o calor foi suportável. A partir dali, gradualmente, foram sentindo o frio das altitudes; mas, em compensação, livres da chuva e consequentes atoleiros que muito contribuiu para a redução do tempo do trajecto. E o mais importante, a expectativa destes na indescritível consolação do reencontro com os seus patrícios, com tecto preparado para os acolher, cumprido no dia 19 de Agosto de 1885 – Quarta-Feira.

   
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CARRO BOER DE PASSAGEIROS – HUMPATA “A Colonização das Terras Altas da Huila”de Carlos Alberto Medeiros
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CARRO BOER – MOSSÂMEDES “A Colonização das Terras Altas da Huila

de  Carlos Alberto Medeiros

Breve pausa

 

Vou interromper aqui a história das Colónias Madeirenses para lembrar, em poucas linhas, um pormenor deveras desonroso para os fautores e de meditação e tristeza para todos os huilanos que se prezam. 

O Lubango – pré Sá da Bandeira

 

Topografia – Tratava-se de uma colina plana, abraçada a noroeste, oeste e sudoeste pela Cordilheira Marginal; e a norte, este e sul por densa mata de espécies lenhosas, arbustivas e frutíferas. Situava-se entre os rios Mapunda e Mucufi. Estes detalhes poderão ser apreciados num esboço cartográfico de 1890, a anexar.

Toponímia – Existem duas versões sobre a origem do nome: “Caluvango”, nome dum soba dali; e “Lubango”, nome dum rio, afluente do Mucufi. Esta terra, entre altas serras e rios de curso permanente, representava o território real embelezado com a sua “Ombala”, sob frondosas mulembas, residência do soba (Rei) e da sua corte. Em derredor desta habitavam os súbditos do monarca a cuidar dos arimbos e gados. Em 1874, descoberta esta pequena e edénica terra, foi logo cobiçada e eleita para estabelecimento de colonos: madeirenses e outros. Todavia, a zona teria que ser primeiro “desnegrada”!...

O governador de Moçâmedes, sem efectivos militares à altura para expulsar o soba e a sua gente, confia a “obra” ao capitão Nestor da Costa, latifundiário na região da Bibala no cultivo de algodão, para exportação, e cana-doce para produção de aguardente. Este capitão, com a mira no saque e uma oportunidade para a captura de escravos para as suas plantações, com uma força formada por seus serviçais e outros indígenas da zona (impelidos), ataca o temível soba conhecido por “Cabeça Grande”. Os invasores, após breve escaramuça, foram repelidos e perseguidos até grande distância.

O referido soba, ao tomar conhecimento de que estava a ser preparada nova invasão, esta com o auxílio dos aguerridos bóeres, a cavalo, fugiu para a Cuama. Sem o seu rei o povo dispersou-se deixando a região deserta. Asneira semelhante havia sido praticada em 1881 quando, para a instalação dos bóeres na Humpata, muitas famílias indígenas foram dali deslocadas. Mas com uma diferença; “foram gratificadas!”: fazendas no valor de 46.080 réis (o equivalente a 8 vacas) e três ancoretas de aguardente (60 litros) comprada em Capangombe a 160 réis a canada (1,4 l). Muito generoso esse Nunes da Mata, governador de Moçâmedes! Muito mais gastou ele na deslocação para presidir à cerimónia de inauguração da colónia bóer, chamada de “S. Januário”, a 19 de Janeiro de 1881.

 

Disseminação dos madeirenses

 


Sob a “direcção” do emproado e prepotente Câmara Leme os 558 colonos, amontoados nos Barracões, foram assim distribuídos: Chibía-44 (director desta nova colónia, o capitão Joaquim Afonso Laje); Humpata-55; sede do concelho da Huila – 32 (não assinalados). Nestas localidades a população branca anterior era: Chibía – 3; Humpata – 44 (além de cerca de 350 bóeres); Huíla – à volta de 100. Após este desmembramento ficaram nos barracões 424 pessoas. Estes números poderão ser apreciados nos mapas a inserir mais adiante.


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Palácio de Câmara Leme - “Os Colonos ”de Dr. António Trabulo
Nascimento físico da colónia Sá da Bandeira

Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns poucos ficavam de guarda nos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxadas e pás aos ombros, calcorreavam os 5km até aos antigos domínios reais, agora “desinfestados”. Face aos perigos de emboscadas da gente do soba “Cabeça Grande” que embora escorraçado não se deu por vencido, o grupo era escoltado por três praças e uma dúzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) armados com obsoletas e ferrugentas espingardas de “pederneira” do século XVII. A cavalo, chicote na mão e revólver de tambor à cinta, seguia o D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos consistiam no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolongou-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite. 

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LUBANGO SECULO XIX
Lubango século XIX
LUBANGO SECULO XIX R PINHEIRO CHAGAS
Rua principal do Lubango, nos fins do século XIX; corresponde a actual Rua Pinheiro Chagas
“A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
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LUBANGO 1969 RUA PINHEIRO CHAGAS  “A Colonização das Terras Altas da Huila”
de Carlos Alberto Medeiros
 
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“A Colonização das Terras Altas da Huila”

de Carlos Alberto Medeiros


Mais contingentes e seus frutos

 


De 1888 a 1892 as populações das colónias já citadas foram aumentando com a chegada de mais madeirenses aos Barracões e em seguida deslocados gradualmente até um total de: Chibía – 667; Humpata – 91; Huíla – nada consta! … Os restantes – 823 – ficaram nos Barracões, com destino à colónia Sá da Bandeira e a do Caculuvar. A movimentação e números descritos constam de mapas oficiais a incluir mais adiante.

Em Sá da Bandeira, com os números de homens válidos a aumentar a cada ano, foram abertas novas levadas, distribuídos talhões para a construção de casas de pau-a-pique e capim e alargadas, com arados, as áreas para a cultivo de: cereais, legumes, leguminosas, espécies tuberculosas e bulbosas. Foram também plantadas, para ensaio, algumas espécies de árvores frutíferas.

No primeiro e segundo ano os resultados agrícolas foram desanimadores. Causas: insuficiência de bois de tracção para as charruas; sementeiras efectuadas fora das estações próprias; sementes de má qualidade; e o pior, incompetência e teimosia dos pseudotécnicos agrários importados de Portugal. Graças aos conhecimentos levados da Madeira e as experiências adquiridas no terreno, os proveitos foram melhorando progressivamente. Há que reconhecer, embora pouco amistosos, a utilidade dos bóeres na venda de bois mansos, cangas, peaças, brochas, etc. Artes que, na época, só eles dominavam.


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Raça Sul de Angola - extinta
TRABALHOS AGRICOLAS LUBANGO XIX
TRABALHOS AGRICOLAS LUBANGO XIX “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros

 


Imperdoável – símbolos perdidos

 


Lamentavelmente, para nossa vergonha, da “Ombala” nenhuma mulemba foi poupada nem sequer assinalado o seu lugar. O rio “Lubango”, devido ao seu desvio na fonte para as levadas, desapareceu: nem uma simples rocha foi colocada a assinalar o local do seu assoreado leito. Sorte semelhante sofreu o rio “Mucufi”. Não obstante mais caudaloso que o rio “Lubango”, por causa das sucessivas captações na sua cabeceira, o remanescente, ainda no seu curso superior, foi açudado, desviado para a levada que irrigava os campos de trigo do bairro da Machiqueira (de Machico). Esta levada acaba represada para mover os rodízios duma moagem de cereais. A partir dali, às curvas e contracurvas, transforma-se em regato e volta ao leito materno já confluído com o rio Mapunda, originando o Caculuvar que deu nome aos barracões e à maldita colónia. Depois de lhe roubarem toda a água, o Mucufi passou a expressão de mulola e reservatório de lixo. O rio Caculuvar vai engrossando ao receber os rios Nompaca, Tximúcua, Lupolo (ou Huíla) Txipumpunhime e alguns riachos. Depois de oferecer um pouco do seu caudal para regar os grandes campos dum outro Caculuvar, Txahungo e Missão Católica da Txihíta (Quiíta) entrega as suas águas ao rio “Cunene”, cujo nome corrompido de “Inênê”, significa enorme.

 
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Entre a maledicência e a verdade

 

Pelos fracassos, em todas as áreas, de colonização dirigida, a culpa era sempre assacada aos madeirenses, apodados de: preguiçosos, incompetentes, bêbados, etc. e nunca assumida pelos irresponsáveis mandões. Confirmando-se assim um desabafo do ministro Sá da Bandeira: “Que os fracassos do desenvolvimento de Angola deviam-se aos maus governantes em Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola”. Sem pretensões a juízos maniqueístas o que descrevi e o que irei acrescentar corresponde à verdade.

Foram esses humildes madeirenses, tão maltratados fisicamente e ridicularizados moralmente pelos “senhores” idos de Portugal e até por um conterrâneo, com todos os defeitos que injustamente lhes têm sido imputados, ninguém, minimamente esclarecido, se atreveria a desacreditar o seu gratificante legado. Foram eles, fustigados pela chuva, sol, vento e frio que desbravaram, aplanaram e – milagre (!) – conquistaram a merecida confiança e aproximação dos dóceis muílas tão hostis – com sobejos motivos – aquando da usurpação das suas terras.

  
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Foi graças ao labor desses “analfabetos”, que em 1889 a colónia Sá da Bandeira foi elevada a concelho. Lamentavelmente como primeiro administrador o famigerado Câmara Leme. Foi ainda por mercê das obras dos colonos que se “abriram as portas” da Chela para a entrada de emigrantes portugueses europeus – entre eles gente de qualidade – que, com capitais próprios, diversificaram os ramos de actividades: Indústria, pecuária, agricultura e, por inerência, o comércio. Foi pelas mãos calejadas e assisadas iniciativas que essa gente, antes separada pelo Atlântico, agora lado a lado, degrau em degrau, imprimiram, económica e demograficamente, mais vitalidade justificando, em 1901, a criação do distrito da Huíla com capital e nome de Vila Sá da Bandeira, com 1248 habitantes (contra os 1020 de Moçâmedes).

Após 18 anos (obras públicas à portuguesa) desde o início do assentamento da mini linha-férrea (bitola 0,60m) em Moçâmedes, esta atinge o Lubango em 18 de Maio de 1923 e, sobre os seus carris, chega e apita o primeiro mini comboio, e a vila Sá da Bandeira categorizada a cidade. (Em 1939 foram iniciados os trabalhos do seu alargamento para bitola 1,067m).


Colónia do Caculuvar” – colónia ou campo correcional?


Em 1890, a uns 4km a sueste dos barracões, foi constituída a colónia do Caculuvar orientada por um subdirector (anónimo!...) subordinado ao director da colónia Sá da Bandeira, Câmara Leme. Nesta “sucursal” foram colocados 247 colonos dos 701 chegados ao Lubango nesse ano. O tempo de vida (omitido) desta colónia foi de curta duração. Motivo? Péssima administração e os inconcebíveis abusos do repugnante subdirector, de conivência com Câmara Leme. João de Almeida, no seu livro Sul de Angola, pagina 296, sobre os desmandos cometidos pelo referido subdirector, deixou-nos o seguinte testemunho:

“Tendo este, uma loja por sua conta, obrigava todos os colonos a comprar-lhe os géneros por preços excessivos, não permitindo que fossem adquiri-los a outra qualquer parte, antes prendendo e castigando corporalmente, duma forma bárbara, aqueles que transgrediam a proibição, correctivo que também aplicava àqueles que se permitiam à liberdade de fazerem observações quanto ao verdadeiro rumo a tomar na abertura das levadas ou direcção dos trabalhos. Este Director da Colónia foi degredado para Moçambique”. Grande castigo, louvável justiça!...

Consequências – A colónia foi extinta, posto termo à imigração por contrato, regresso de alguns colonos à Madeira, enquanto os outros, voluntariamente, transferiram-se para novos lugares menos opressivos.


O Cavalo-marinho e cascos d´aço


Ao trazer à tona os “feitos” do carrasco da colónia do Caculuvar, não devemos olvidar o cruel Câmara Leme (alcunhado de “navio” por andar sempre de proa empinada, possuir câmara e leme), sempre de “cavalo-marinho” na mão aplicando-o com frequência sobre o “lombo” dos seus concidadãos. Conta-se que na origem dos elevados impostos e outras exigências incomportáveis face ao baixo rendimento dos colonos, estes, encabeçados por Manuel Henriques, marcharam até à administração em sinal de protesto contra os referidos excessos. A resposta do administrador do concelho, Câmara Leme, foi rápida e “satisfatória”, (para ele!). De chicote nas patas e biqueira d’aço nos cascos flagelou e escoiceou o indefeso e pacífico Manuel Henriques, abandonando-o num estado lastimoso. Esta barbaridade pode ser confirmada pelos seus numerosos descendentes.

Admite-se que não foi por acaso a transferência de Câmara Leme para a Ilha de S. Tomé no final do século XIX.


Recompensa

Cerca de meio século após o enunciado nos capítulos anteriores, foi colocado, no liceu Diogo Cão, como professor, o Dr. Mendonça, mais conhecido, devido à sua compleição atlética, por “Mendonça das Forças”, natural da Madeira. À sua estatura física sobrepunha-se o saber e competência na profissão que abraçara. Admirável qualidade, mas excedida pelo seu nobre carácter e sentimentos filantrópicos, em especial para com os seus conterrâneos no Lubango, já na ordem dos vinte mil.

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Liceu Nacional Diogo Cão

A este homem, culto mas em contrapartida humilde, (discípulo de Baco), se ficou a dever uma louvável acção jamais pensada pelas gentes do Lubango. Foi este homem que proporcionou grande alegria a um grupo de colonos, alguns octogenários, entre eles o citado Manuel Henriques, organizando e acompanhando esse grupo até à Madeira numa romagem de saudades aos cantinhos que os viu nascer. BEM-HAJAS, “MENDONÇA DAS FORÇAS”! E que o lugar no cemitério dos Barracões, onde dormes, seja honrado de harmonia com a tua conduta nessa terra que tanto amaste e onde viveste, feliz, a maior parte da tua vida.

 

Os porquês da emigração dos madeirenses para Angola 

 

Afinal qual a política que animou os madeirenses a emigrar para a longínqua Angola quando outros mundos havia, mais convidativos? Este capítulo, que deveria constituir o exórdio deste meu escrito preferi inseri-lo aqui. Mais, porque ficaria truncado sem uma pitada relativa à história da Madeira, aqui fica o essencial da intenção em mente.

O arquipélago, nomeado de Madeira, já havia sido avistado pelos navegadores espanhóis que colonizaram as ilhas Canárias, no século XIV. Todavia foi João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1418, e Zarco e Bartolomeu Perestrelo, em 1419, os primeiros a pisar, respectivamente, as inabitadas ilhas de Porto Santo e da Madeira. Como recompensa, pelo achado, estas ilhas foram divididas em três capitanias: Funchal, para Gonçalves Zarco; Machico, para Tristão Teixeira; Porto Santo, para Bartolomeu Perestrelo.

Estes senhores, endinheirados, inteligentes e bons empreendedores, com homens recrutados em Portugal e noutros pontos da Europa, lançam mãos aos trabalhos primordiais: abertura de canais de rega (levadas), construção de paredões em pedra para nivelamento dos poios (socalcos), desmatação e arroteamentos. À medida que os trabalhos avançavam iam sendo ensaiadas diversas culturas: gramíneas, leguminosas, vinhas, cana-doce, árvores de frutos tropicais, mediterrânicos, etc. Foi também introduzido gado, principalmente bovino e suíno. Os resultados foram satisfatórios. Em poucos anos a ilha goza de auto-suficiência alimentar. Zarco e Tristão não chegaram a saborear os frutos dos seus empreendimentos, conquanto os seus herdeiros empenharam-se, com determinação, na continuidade da obra.

Mais tarde o povoamento foi alargado em donatarias a favor dos servidores do rei (D. Manuel I), como recompensa de serviços prestados à Coroa ou à ordem de Cristo. No século XVI foi intensificado o seu povoamento (entre eles um pequeno número de escravos negros e das Canárias) para a preservar de cobiças estranhas. Todavia, em 1801 – 1802, por alguma justificação, foi ocupada pela Inglaterra, e novamente em 1807 – 1814, como prevenção a uma possível investida de Napoleão Bonaparte. Estas ocupações vieram a revelar-se proveitosas, traduzidas no alargamento das relações comerciais entre as duas partes.

A partir dos finais do século XV até meados de XVII, a Madeira viveu períodos de apreciável prosperidade resultante das exportações de trigo, açúcar de qualidade, vinhos afamados, manteiga, pescado, etc., etc. Porém, abandonado o cultivo de trigo a juntar as abundantes produções de açúcar do Brasil e outras partes da América obtidas com o vergonhoso trabalho de escravos – mais barato, portanto – os produtos da Madeira, à excepção do vinho, perdem competitividade. Em consequência instala-se a carestia e a ilha entra em declínio. Para pioria da momentosa situação, a “guerra” entre os irmãos D. Miguel, absolutista, e o fanático e ganancioso D. Pedro IV, liberal, contagiou também a Madeira provocando agitações e, como aconteceu em Portugal, a política foi roubar os bens da Igreja, e dos vencidos miguelistas, em benefício dos oportunistas liberais.

Com o declínio da economia à vista, parte da população – já numerosa – envereda pela emigração para as Américas e África do Sul. Mas, para efectivar o objectivo, tinham que dispor de dinheiro para as passagens. Como nem todos, com o desejo de emigrar, possuíam qualquer pecúlio, os menos capacitados profissionalmente, tiveram que sujeitar-se a trabalhar para os donatários em regime parciário: uma parte para o senhor das terras e quatro para os trabalhadores, alojados em sanzalas. Os proveitos obtidos, mal davam para a sua alimentação.

Ora, com tal modo de vida e sem esperanças de melhores dias, aquela gente, para se libertar do jugo dos seus senhores, facilmente concordou emigrar para Angola aceitando as condições dos contratos que consistiam no seguinte: transporte da Madeira ao Lubango; fornecimento de sementes; alfaias agrícolas; objectos para uso pessoal e para defesa; gado bovino e suíno; atribuição de 2ha de terreno; abono de 30.000 réis no acto do contrato na Madeira; subsídio diário, durante um ano, de 300, 200 e 100 réis para, respectivamente, homens, mulheres e aos menores de 18 anos. Metade destas importâncias nos seis meses seguintes. Como argumentos convincentes os contratadores fizeram-lhes a imagem paradisíaca do Lubango, encobrindo quão difícil seria lá chegar. Sobre o abono de 30.000 réis desconheço se foi por pessoa ou por agregado. Para aquela gente, literalmente carente, confiante na oportunidade oferecida, decerto com um “seja o que Deus quiser”, rumaram ao seu destino. Mas, pelo o que descrevi e o que irei acrescentar, a aventura dos primeiros tempos foi-lhes bem adversa. 

Destes subsídios – nem sempre pagos pontualmente – era descontada certa percentagem para a construção do palácio de Câmara Leme!

Para se compreender o valor da moeda réis, vou dar os preços de alguns artigos, por quilo e litro e, entre parêntesis, o custo na Metrópole: açúcar, 600 réis (260); azeite, 800 (360); vinho, 400 (100). O preço médio de um boi bravo (não preparado para tracção) era de 12.000 – 15.000 réis; um boi de carro (de canga), 20.000 – 30.000; um carro bóer, 700.000. Para comparação, os preços de alguns frutos produzidos pelos agricultores, conforme as leis de abundância e escassez, em réis e por quilo eram: trigo 60-100; milho, variedade dente de cavalo (branco) e catete (amarelo), 30-60; batata, 30-50; batata-doce (cinco bicos), alimentação predilecta dos madeirenses, 15-20 réis.

 

Esclarecimento 

 

Nomes, factos e datas desde o primeiro recrutamento – 1884 – na Madeira até ao último parágrafo, servi-me de apontamentos extraídos das obras “Sul de Angola” e “Terras Altas da Huíla” da autoria de João de Almeida e Carlos Medeiros, respectivamente. Lamentavelmente com lapsos imperdoáveis: Citam nomes e feitos de gente originária de Portugal mas dos madeirenses, mesmo com as consultas aos arquivos com os registos dos colonos, nenhum nome nem local de nascimento foi mencionado. Encontrei apenas números!...

Quanto às peripécias e desenganos sofridos pelos “anónimos” madeirenses, foram-me transmitidos, há 26 anos, por meus primos José e Ricardo, nascidos nos princípios do século XX, que lhes foi contado por seus pais Maria e João Ladeira, que os viveram ou ouviram de quem os viveu.

Ainda e por oportuno, eis algumas passagens do livro “OS MADEIRENSES NA COLONIZAÇÃO DO BRASIL”, de Maria Licínia Fernandes dos Santos: “Na história da Madeira, a problemática da sua participação na colonização do Brasil tem permanecido à margem das dominantes preocupações dos estudiosos. De facto, desconhecemos estudos aprofundados sobre a emigração de madeirenses para o Brasil nos séculos, XVI, XVII e XVIII. Dada a função crucial da emigração em todos os planos (económico, social, demográfico e cultural), esta situação não pode deixar de surpreender. Simultaneamente, sabemos que as condições técnicas da produção de açúcar, (…) depois de testadas na ilha da Madeira, foram transplantadas (…) para o Brasil, assim como as primeiras socas de cana.

Esta singular realidade e a insólita situação, constatada no decurso das nossas pesquisas, de os historiadores se referirem frequentemente ao fluxo emigratório de açorianos para o Brasil (…) quase esquecendo o importante contributo dos madeirenses nesse processo, constituíram para nós um estímulo acrescido na realização deste trabalho.

As nossas pesquisas começaram na Universidade de Coimbra, Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, prosseguindo no Funchal e no Recife, terminando no Rio de Janeiro. Note-se que também Santa Catarina, região que não tivemos oportunidade de visitar, deverá ter documentação de suma importância para melhor conhecimento da presença madeirense, no Brasil. (…) Quantos pormenores não poderíamos revelar se conseguíssemos encontrar alguns desses documentos?

Filhos da diáspora no período áureo da História Portuguesa, os madeirenses manifestam no decurso dos séculos uma tendência bem marcada para a emigração e, de entre os seus destinos, o Brasil. Particularmente significativo foi o fluxo madeirense para o Brasil não só de soldados e agentes da burocracia régia, como também de colonos para o arroteamento das terras e de operários especializados que construíram os engenhos e os colocaram em movimento.

De referir ainda que o embarque clandestino, a partir de 1779, levou muitos madeirenses para o Brasil. A porta mais segura de saída clandestina para aqueles emigrantes eram, então as ilhas Desertas. (…) De preferência a Deserta Grande, onde os deixavam na véspera de passagem de um veleiro que navegava periodicamente entre a Madeira e o Brasil.

Acrescente-se ainda a fuga à justiça por parte de muitos madeirenses que partiram para o Brasil como homiziados.

Finalmente, a intolerância religiosa vai ela, também fomentar a emigração madeirense para o Brasil. Com efeito, observa-se a fixação de muitos cristãos-novos da Madeira na área de Pernambuco, assim como outras famílias, que se transferem para a nova colónia, principalmente ao longo da segunda metade do século XVI, a que não é alheia a decadência da produção açucareira madeirense.

A Madeira foi entreposto, estação de passagem para o Brasil (…). Canas-de-açúcar, espécies vegetativas, gado, tudo foi daí … Que documentos haverá disso? Foram daí as vinte primeiras famílias que fizeram sementeiras de brasileiros … Haverá documentos disso? Até o nome lhe não sabemos …

Infelizmente, continuamos a desconhecer os registos sobre estas famílias. No entanto, estamos certos da presença madeirense no Brasil desde o início da colonização (…). Assim e como os documentos nos indicam, D. João III, em 1530, enviou Martim Afonso de Sousa num navio que, segundo alguns Historiadores, levava cana-de-açúcar da Madeira, para um determinado local do litoral do Brasil (…). Que na ilha da Madeira um cristão-novo pediu licença para embarcar com a esposa e quatro filhos menores (…). A este propósito, parece-nos perfeitamente plausível a hipótese (…) de que terão sido os ocupantes da armada de Martim Afonso que baptizaram o hoje bem conhecido morro Pão de Açúcar, possivelmente porque este morro tem a forma do conhecido Pão de Açúcar Madeirense.

Outro aspecto interessante a realçar e a reforçar a ideia de madeirenses nesta armada é o facto de, na mesma época, ter sido dado o nome de Ilha da Madeira a uma ilha de Guanabara, depois ilha das Cobras. Por outro lado, sabemos que o rei, por alvará de 1515, ordenou ao feitor e oficiais da Casa da Índia que “procurassem e elegessem um homem prático capaz de ir ao Brasil dar princípio a um engenho de açúcar; e que se desse uma ajuda de custo e também todo o cobre e ferro e mais coisas necessárias.

Quem melhor que um madeirense para levar a cabo esta tarefa?

(…) E, nessa época, um quase monopólio desse conhecimento estava nas mãos dos madeirenses. Aliás, o padre João António Andreone publicou uma espécie de manual de agricultura colonial, onde tratava também do açúcar, livro que foi apreendido e destruído, logo após a sua publicação, para que não se divulgasse conhecimentos considerados um exclusivo madeirense”.

Esta breve transcrição – da extensa dissertação do citado livro – vem confirmar o efeito duma reportagem, do grande profissional Brandão Lucas, para a Televisão Portuguesa, nos lugares pertinentes. Lato, claro e despretensioso na narração, valendo-se de documentação histórica e da preciosa colaboração da gente local, mostra os primeiros engenhos de tracção animal (em desenho); os movidos a energia hidráulica (conservados); e as enormes usinas a vapor (ultrapassadas, mas conservadas). E mais imagens sobre feitos militares, cultura e tradições madeirenses.

 

Elementos genealógicos

 

Do grupo colocado na sede de concelho da Huíla, vou destacar dois agregados familiares que constituíram a nossa ascendência: lado paterno – Maria Gonçalves Panasco, 39 anos, viúva de Manuel Rodrigues Panasco, acompanhada de cinco filhos. Lado materno – Filipe da Câmara, casado com Maria de Jesus, acompanhado de uma filha Delfina de Jesus, 20 anos, natural de Serra d`Àgua. Maria Gonçalves Panasco tinha dois irmãos mais novos: João e José. Um deles emigrou para o Brasil dias antes do embarque desta para Angola; o outro, honrou a sua permanência na Madeira. Sabe-se que houve troca de notícias entre os três irmãos dispersos e certeza que estes deixaram descendentes.

Assim, lado paterno – Manuel Rodrigues Panasco e Maria Gonçalves Panasco:   


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Lado materno – Baltasar Rodrigues, 1843, natural de Rio de Mel – Trancoso, alfaiate, filho de Luisa Castela, pai incógnito; neto materno de Baltasar Castela e de Umbelina de Jesus. Baltasar Rodrigues, a residir na Huíla aquando da chegada da primeira colónia de madeirenses, contrai matrimónio com Delfina de Jesus do qual nasceram:  

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Maria José contrai matrimónio com João Rodrigues Panasco, em 6 de Dezembro de 1903, na Missão Católica da Huíla, de cujo enlace resultou:   

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Casal João e Maria José


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FAMILIA RODRIGUES
Na Chibia (1936). Grupo: casal João / Maria José, filhos genro e netos: plano superior: João e  Alípio; 1º à esquerda: Alípio Jr; 1º à direita: Dinora ao lado do pai; 3º à esquerda: Albano atrás da mãe; sentados: Luis, Pedro e Jorge. 
Um aparte – coincidência

 

Em 11 de Janeiro de 1905, Frederic, descobre, reflectido pelos raios solares, numa escarpa térrea, no Transvaal, Africa do Sul, um enorme diamante que oferece a Culinan, governador inglês no Cabo. Este presenteia o diamante ao seu rei Eduardo VII que o confia ao melhor técnico de Amesterdão para lapidação. O técnico, ao vê-lo, ficou extático perante a enormidade da pedra: com 3032 quilates (600gr), quatro vezes maior entre os maiores extraídos até a época e até hoje. O técnico lapidário, depois de três meses a estudar a pedra, com mão de mestre aplica-lhe o golpe certo que o dividiu em dois. Uma das metades, lapidada e polida, recebe o nome de “Estrela de Africa”; que, mesmo assim, continua a ser o maior do mundo. A outra metade foi dividida em doze de diversos tamanhos.   

 

Prosseguindo


A nossa avó materna, Delfina de Jesus, faleceu de doença súbita (Meningite?), na Huíla, aos 32 anos. As filhas, ainda crianças, foram recolhidas pelas irmãs de S. José de Cluny; e o filho pelos padres espiritanos da Missão Católica da Huíla.

 

A nossa avó paterna, Maria Gonçalves, depois de alguns anos na Huíla, muda para o Rio Grande, km 14, onde viveu com a sua primogénita, Maria (Marquinhas). Faleceu em 1931, com 85 anos. Repousa no cemitério da Huíla, ao lado de seus filhos João e José.

 

Baltasar Rodrigues, degredado para Angola por uxoricídio – crime que não cometeu – levou consigo um dos dois filhos nascidos em Portugal: Augusto Rodrigues dos Santos, que se deixou ficar por Moçâmedes, onde se estabeleceu e teve sucesso. Casou com uma grande senhora mulata de nome Carlota Abreu, do qual nasceram dois filhos e três filhas. Baltazar Rodrigues, agora viúvo, gerou mais um filho de apelido Cardoso, residente em Humpata. Desgostoso, pela perda da esposa e de um desterro injusto, deu na bebida, foi perdendo a razão, terminando os seus dias sob os desvelos de sua filha Maria José. Digo desterro injusto, visto o verdadeiro homicida, corroído de remorsos, anos depois, ter confessado a autoria do crime às autoridades competentes.

 

O nosso avô Baltasar em bens materiais nada deixou. Tudo quanto auferia no seu ofício de alfaiate dava apenas para o dia a dia. Só à nossa Mãe transmitiu uma preciosa “herança”: habilitou-a, para o suceder na sua arte que veio a desempenhar com perfeição, na confecção de roupas masculinas: desde camisas aos fatos completos, até vestes sacerdotais. Do chulear à aplicação dos botões – mais tarde com a ajuda das filhas – tudo executava sozinha, muitas vezes sob a fraca luz do candeeiro a petróleo. Por máquina, dispunha de uma velha “Teotónia”, accionada à manivela, mais tarde adaptada a uma mesa com pedal e correia “Phoenix”. Pés e cabeça, devido às folgas próprias do muito uso – sabe-se lá quantos anos – faziam tal barulho, audível a uns bons metros. O Sabino, a viver na Banda / Ngongo, 30 km, sempre que ia à Huíla, jeitoso que era, dentro do possível, reduzia, por algum tempo, as folgas. O nosso pai, devido ao acentuar da sua insuficiência cardíaca, mesmo montado num boi-cavalo, ficou impossibilitado de continuar no negócio ambulante (funante) até á região de Humbe, 300Km da Huíla. A agravar a situação não havia mercado de consumo para os produtos arrancados da terra. Foi com o resultado da “herança” deixada por nosso avô Baltazar, que a nossa mãe assegurou a subsistência da família, que aumentava a cada dois anos, até 1930.

 

Muito mais havia a acrescentar sobre o percurso dos colonos madeirenses. Mas, dado o propósito essencial a que me propus – romance da família – seguir nos próximos capítulos, fico por aqui. Porém com profundo sentimento e orgulho por descender desses – uns melhores outros piores – nobres cabouqueiros.

 

Depois da breve dissertação sobre factos históricos e do que foi possível memorar para compor uma genealogia de 1843 a 1903 e a descendência desta, apurei, até hoje, (ano 2000), sete gerações; nas quais dominou, e assim continuará até ao fim dos tempos, o apelido RODRIGUES, cujos descendentes, neste fim de milénio, ascende o meio milhar de almas.

 

Ao lembrar o número de descendentes da família Rodrigues, seria imperdoável preterir o possível apuramento do total dos descendentes dos 2150 colonos, estabelecidos no Lubango, Chibía, Humpata e povoação da Huíla, já descrito em pormenor. Grosso modo, nesta passagem de milénio a população de origem madeirense, salvo alguma falha aritmética, será de aproximadamente 35 000 almas; dispersas por todo o Portugal, Brasil e Angola.  


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