Obrigado à Marisa, pelas imagens da nossa saudosa terra.
Espero com estas fotos... trazer um pouco do passado.... dos bons velhos tempos....
E como recordar é vive.... k vivam as belas recordações de outros tempos....
Alguém há-de reconhecer... kem sabe.... a casa onde viveu...
e mais uma foto para o album de memória de todos k me são keridos...
Como ás recordações já me falham... fui fotografando as casas k na minha ideia poderiam pertencer a minha família...
Ser criança é maravilhoso.... emocionou a simplicidade deste brinquedo... k diferença de toda a tecnologia k temos á disposição... e a alegria k este estava a proporcionar ás crianças... deveras triste...
Mais estrada no horizonte... Kalukembe ficava para trás, mas... a emoção estava ainda estava patente no olhar...
Se há coisa fora do vulgar nesta terra.. é o céu... aki fica uma pekena amostra...
Os carrinhos das compras... versão afro...
O mercado á saída de Kalukembe... Como costumo dizer.... "Uma animaxão"....
Muitos selos ajudei a colar.... Espaço pekeno mas k nos era muito kerido...
A velha estação dos correios... Tenho a certeza que trará belas recordações a algumas pessoas...
O "célebre" Clube Recreativo... dos bailes... das sessões de cinema...
Penso k esta seria a escola... já lá vão muitos anos para as memórias de uma criança que deixou à muito esta terra...
A minha "triste" casinha... tão bonita k ela era...
Como a memória e a saudade ainda vivem...
O forno da padaria do pão bem kentinho....
o parque das brincadeiras de criança...
Sinais da infância perdida... e não só....
A "velha" e saudosa pensão do Ruas... o nosso kerido tio...
Se bem me recordo... o restaurante da pensão dos nossos tios...
Uma vista da "avenida"....
Com sinceridade... não sei se é uma casa da família... mas por via das dúvidas... aki fica a imagem...
Mais uma imagem, k penso irá despertar memórias á minha família... com carinho para todos vocês...
Este espaço agora faz concorrência á "Pensão do Ruas"... k saudades dos bons velhos tempos...
Esta praça fica em frente à antiga" Pensão do Ruas". Um pouco mais á eskerda compramos o melhor pão k já haviamos comido.... fica a dúvida... seria da fome... ou o pão era mesmo bom... acho k a 2ª prevalece... a minha filhota e os amigos não me deixam mentir...
A trágica e fatídica rotunda de Kaluquembe... para kem a conhece... boas ou más memórias... mas ainda persiste... contra guerras e marés...
Vi - não interessa por que meio - no programa do Jô um Rui Morais e Castro a preleccionar com palavras e gestos, de forma ignominiosa, sobre a cultura (práticas, costumes e tradições) de duas tribos do sul de Angola: Vamuíla e Vacuvalê.
Ante tais dislates, movido pelo respeito àquele povo, não devo calar a minha indignação; mas sim, de forma sucinta, reprovar e corrigir o chorrilho de disparates proferidos.
1. Nasci e vivi na povoação da Huíla (a mesma Huíla que deu nome à Província e foi mãe da sua capital - Lubango) no meio do povo mumuíla, no singular; vamuíla, no plural. Esta tribo, dispersa por uns cem mil km2, faz parte da etnia Nhaneca - Humbi, uma das nove etnias de Angola, segundo a divisão etnológica.
2. As vamuíla não praticam nenhum tipo de excisão genital nem a absurda dilatação e bissecção do clítoris. Só os homens (ovalume), orgulhosamente, são cicuncidados (excisão do prepúcio) (etanda).
3. Os seus penteados, trabalhados conforme a idade, passam por diferentes formatos . Na adolescência (ovacaínto) usam finas tranças adornadas com missangas. Ao atingirem a puberdade, em grupo e ambiente festivo (ohicô), com uma pasta feita com manteiga rançosa (ongundi) e pó de hematite (oncula), solenemente, é-lhes moldado no centro da cabeça uma elevação em forma de crista (otxipuquica). Cerca de um ano depois, como confirmação da sua maturidade, a crista é enfeitada com tachas amarelas (eriquê). Segue-se - num espaço de tempo variável - a substituiçao do "eriquê" por outra, de dupla saliência, moldada com a mesma pasta, na horizontal occipital, de orelha a orelha (ohundia). Este penteado indica que a rapariga (omuhicuena) está na idade de escolher, entre inúmeros namorados, o seu preferido. Ao acontecer é acertado o casamento. Pago ao pai ou a um tio da noiva pelo pai ou um tio do noivo o dote acordado (ovitumbicô), sem quaisquer cerimónias, o casal vai para a sua casa próxima dos pais do marido. O penteado (ohundia) é transformado em tranças espalmadas (omampútia). Com o nascimento do primeiro filho as "mampútias" são desfeitas dando lugar a novas tranças, mais numerosas e redondas e aplicada uma anilha de caniço. Com o nascimento de mais filhos são aplicadas mais anilhas, sem limites, até cobrirem toda a cabeça (olunhonga).
As mulheres maninhas (estéreis) usam tranças iguais as mostradas no parágrafo anterior; porém, sem anilhas. Só em caso de morte de uma irmã com filhos herda o direito a aplicação de anilhas. De registar que as maninhas são olhadas com desdém e até humilhadas pelas parideiras. Por vezes são repudiadas pelos maridos ou terem que suportar, com resignação, a presença de outra mulher levada pelo marido-bígamo.
Tranças com anilhas de caniços
Vahicuena
Penteado eriquê
4. Os búzios (onompandê), de preferência helicoidais, presos sobre uma chapa de latão a uma cinta de couro, oferecidos pelo pai, tio ou marido, além de adorno e elevado estatuto social, simbolizam o grau de riqueza do ofertante. As mulheres gozam dos seus direitos; excepto o direito de posse de bens próprios.
Ostentação de búzios
5. O adultério não é considerado crime. Nem por isso é praticado a esmo: raro e irrelevante entre as classes de nível económico e social baixo. Acontece, por vezes, entre mulheres bonitas e homens abastados. Estas mulheres, de concerto com o marido, seduzem homens ricos. Descobertos em flagrante pelo marido, por um irmão ou primo deste, o amante é obrigado a entregar um objecto de uso pessoal (oviumbô) como prova do acto. O caso é levado a "tribunal", presidido pelo sova (rei), que estipula o pagamento (ucoi): em bois (uma ou duas cabeças) ou em dinheiro.
6. Nem só as vamuila mas também noutras etnias, o herdeiro é sempre o primogénito da irmã mais velha do falecido. Sempre foi assim, por tradiçao, cuja origem e razões se desconhece. Daí, susceptível a especulações.
7. Vestuário: As vamuíla não usam roupas costuradas: rejeitam-nas. Os seus trajes resumem-se a um pano em pregas à frente (otxitati) e a uma pele curtida com adornos atrás (omuhoti), suportados por uma cinta de couro. Á volta do tronco, nú, usam uma cinta entrançada ou de couro sob ou sobre os seios. (omavele).
8. O penteado occipital exibido no programa, imbecilmente interpretado como via de diante, não existe em nenhuma tribo do sul de Angola. Deve tratar-se de algum arranjo fotográfico, originário dos cafundórios ou de uma E.T.
9. Calaári: Não é propriamente um deserto. Está classificado como zona semi-desértica, 520 000 km2, cerca de 86% da área do Botswana. Rica em diamantes, pecuária, paraíso de várias espécies de vida selvagem.
10. Deserto Namibe: Este, sim, é um dos maiores desertos da Terra. Estende-se ao longo da costa da Namíbia (cerca de 1 900 km) prologando-se por mais uns 400 km pelo litoral sul de Angola. Daí o agora nome de Namibe a antes Provincia de Moçâmedes.
11. Vacuvalê: Esta tribo pertence a etnia Herero dispersa pelo noroeste da Namíbia (Hererolândia) até a encosta da Cordilheira da Chela - Angola, a uns mil km do Calaári e a aproximadamente 100 km do deserto Namibe.
As mulheres usam o cabelo empastado com óleo espesso e forte odor extraído do fruto nompeque. Sobre o penteado uma armação circular, feita de varas leves, coberta, até à nuca e parietais, por um pano floreado, limpo, com uma prega acima da testa. São robustas, expressão nobre, feições correctas. Indumentária semelhante a das vamuíla.
É um povo pastor, criador de gado bovino, caprino e ovino, logo obrigado à transumância. A sua dieta alimentar é a carne e leite azedo (omavele).
São apodados de ladrões de gado. E são-no, de facto. Mas, pergunto: Que apodo se deve dar a um Soto-Maior, governador-geral de Angola, que em 1941 ordenou, sob seu comando, uma batida a toda zona habitada por estes (guerra dos mucubais), matando muitos, aprisionando outros, roubando-lhes todo o gado (cerca de vinte mil cabeças). E não só: Os presos foram enviados, por quatro anos, para as roças de cacau na ilha de São Tomé e para as pescarias da Baía dos Tigres, entre o mar e as dunas do deserto Namibe. As mulheres, habituadas a boa alimentação, agora sem gado nem homens, experimentaram, a juntar à sua angustia, uma negra fome! Mas não vergaram; conservaram a sua nobre personalidade.
12. Quanto à ridícula representação do pau de vassoura, atribuída aos cuvales, não passa de nojenta invenção. Este povo é suficientemente pudico para se admitir a prática de tal aberração. Eles nunca leram o Kama Sutra.
Por fim: aconselho o Sr. R M C a estudar geografia, fabricar facas de sapateiro de arcos de barril, a cortar argolas de “bambu” e oferecê-las às “mamuilas”. Ao Jô, recomendo a leitura da obra Etnografia de Angola (centro e sul) de Padre Carlos Estermann.
Nota: As palavras sublinhadas indicam, no idioma e pronúncia próprios, o substantivo referente ao assunto que o precede. A primeira sílaba (ô) equivale ao artigo definido a/o, quer no singular quer no plural. As vogais precedidas de h são aspiradas (como no alemão).
Esta página tem por finalidade, transmitir às novas gerações, momentos vividos por mim e familiares para que o que passamos, não caia no esquecimento.
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Adeus Angola
Às seis horas do dia seis de Setembro – sábado – em caravana de umas 300 viaturas, escoltada por 30 militares, arrancamos do Lubango rumo à África do Sul. Percorridos 380 km, sem problemas, às 17 horas atravessamos a fronteira de Santa Clara. Aguardava-nos um grupo de militares sul-africanos com colchões, cobertores, alimentos em conserva, água, refrigerantes e, até, uns cubos combustíveis para amornar os enlatados. Pernoitamos ao relento. Não fazia frio.
Às onze horas do dia seguinte – com feijão ao lume para o almoço – chega uma ordem de partida para Oshakati. Todas as viaturas foram reabastecidas (de graça) até à boca. A deslocação durou umas duas horas. Em Oshakati fomos “instalados” num campo próximo do hospital missionário, preparado para a situação, com algumas tendas, água encanada, latrinas e balneários. Com lenha à mão, o feijão volta ao lume. Cozido e apurado, foi servido como almoço/jantar.
No dia seguinte, de manhã, as autoridades, por altifalante, ordenam a formação em fila para registo dos refugiados e vacinação. Terminadas estas formalidades as autoridades solicitam – sob aviso de inspeção – a entrega de armas, drogas e literatura pornográfica; e diamantes a enviarem para classificação em Pretória e posterior pagamento de oitenta por cento do seu valor. Aos portadores de café, se desejassem vendê-lo, ser-lhes-ia passado um salvo-conduto para todo território sul-africano. Por fim foi-nos dada liberdade para exposição e venda (sem encargos) dos artigos que conseguimos transportar (salvados!).
Ali vendemos duas viaturas, uma moto, frigoríficos, máquinas de costura, fogões, louças, porcelanas, talheres e mais artigos. Tudo por um quinto dos justos valores.
Na tarde do dia nove somos avisados da partida no dia seguinte para o campo de Grootfontein, a 300 km.
A nosso pedido, por conveniência – em troca de umas garrafas de whisky – foi-nos permitido permanecer mais um dia no campo. Assim, o nosso grupo, agora em quatro viaturas, partiu isolado. Eram onze horas – onze de Setembro de 1975. Percorridos uns 100 km parte-se o veio da bomba de injecção da Bedford, sendo levada a reboque. Obrigados a marcha vagarosa passamos a noite, ao relento, em Tsumeb. Alcançamos o campo de Grootfontein às catorze horas do dia doze.
Ficamos todos alojados em tendas militares, com colchões e cobertores de sobra. Existiam balneários e latrinas suficientes, apesar dos estragos causados, por malvadez, pela leva – mais numerosa – que nos antecedeu.
Campo de refugiados em Groodfontein
Funcionava um serviço de pequeno-almoço e almoço. Porque era sempre a mesma “ementa” (carne de vaca com ervilhas) e mal confeccionada, passamos à cozinha própria, até para consumir a grande quantidade de provisões levadas de Angola.
Em tenda própria funcionava um serviço de assistência médica prestada pelo Dr. David Parson, filho do já referido Dr. Parson do hospital do Bongo.
Cerca de uma semana após a nossa chegada ao campo, o nosso grupo divide-se: Camilo, Adelaide, sete filhos com idades entre um e treze anos, em transporte rodoviário ocasional, partem para Windhoek; e dali, de comboio, até Johanesburgo munidos das passagens de avião, compradas em Angola, com destino ao Brasil.
Nos finais de Setembro o Dr. David anuncia a possibilidade de emigração dos refugiados no campo para os E.U.A., com transporte aéreo gratuito, através de uma instituição americana. Só seriam aceites inscrições de pessoas com os passaportes válidos.
A notícia despertou certa euforia. Como nem todos possuíam passaporte, por solicitação dirigida ao Cônsul de Portugal em Windhoek, este fez deslocar um funcionário ao campo a fim de formalizar a emissão dos passaportes. O meu, tem o número 278/75; o da Lucília, 282/75, emitidos em 3 de Outubro de 1975, assinados pelo Cônsul Carlos E. de Sousa Aragão.
Tantas voltas para nada. Efectuou-se apenas um voo. Explicações: insuficiência de fundos!...
Grootfontein. – Sítio árido, sol escaldante. Foi ali, numa tarde da primeira quinzena de Outubro, por carta de Maria Andrade para a Amélia, por intermédio duma prima em Lisboa, chegou a dolorosa notícia do falecimento do Pai, Avô, Bisavô, Irmão, Sogro aos que, uns dias atrás, o haviam visitado em sinal de despedida, agora tão distantes!
Campo de refugiados em Groodfontein
Os dias foram passando. Monótonos. Tórridos de sol a sol; frios durante a noite. No exterior da vedação mais de uma centena de vários tipos de viaturas estacionadas. Umas com as cargas de origem; outras vazias. No campo de Windhoek a situação era idêntica. Os seus proprietários – alguns já em Portugal – a vende-las por valores humilhantes preferiram abandona-las.
As autoridades sul-africanas não prometiam o embarque destas para Portugal; e da parte do governo português, nem sinais. Assim, a aproximar-se a hora da nossa “repatriação”, acabamos por “vender” as quatro viaturas por cerca de 50 contos. E, por muito favor, l000 litros de combustível e 500 de óleo por 5 contos.
De pasmar: nas vésperas da devolução do campo todas as viaturas abandonadas foram recolhidas para um recinto vedado; e no decorrer de 1976, tal como haviam sido abandonadas, despachadas para Portugal e entregues aos seus donos.
No dia 22 de Outubro é anunciada a nossa partida. Nessa noite, militares e alguns residentes da cidade, honraram-nos com uma festa de despedida, no recinto de jogos desportivos, com grupo musical.
No dia 23, os nossos pertences, devidamente rotulados, são transportados para a estação do comboio; e, de seguida, as pessoas: acomodadas, por agregado, em cabines com beliches de acordo com o número de indivíduos. Coube-nos a cabina 21, onde encontramos latas de conservas, fruta natural e bebidas. Ao meio-dia em ponto, ouve-se o silvar do comboio. Em toda a sua extensão, o acenar de muita gente, entre esta um Padre a dar-nos a sua bênção. Bem – hajam! Adeus Grootfontein!
Partida do campo de refugiados de Groodfontein para a estação de comboios.
Os poucos que ficaram no campo – entre estes o Zeca, Amélia e filhas – foram enviados para Johanesburgo, e dali, de avião, para Portugal.
Cerca das l7 horas o comboio pára na estação de Otchivarongo, para atrelagem doutras carruagens com mais gente proveniente do campo de Windhoek. Retomada a marcha, sem paragens, às 8 horas do dia 24, ouve-se o chiar dos travões a anunciar o fim da viagem e da linha-férrea. Estávamos no porto de Walvis Bay.
Sob denso nevoeiro, 1500 (?) desafortunados, em fila, vão sendo transferidos para bordo dum navio de cruzeiro, fretado pela África do Sul. A operação, cuidadosamente controlada pelas duas partes – autoridade sul-africana e tripulação do navio –, demorou umas duas horas. Foi respeitada a atribuição de camarotes e beliches de acordo com a praticada no comboio. Calhou-nos o camarote 21. Foi servido almoço e jantar no navio, ainda ancorado.
Dormimos bem. Seriam seis horas, dia 25, quando nos apercebemos que o “Oceanic”, de Taiwan, já havia levantado ferro. Cumpria a sua terceira e última viagem: numa missão sem nome.
ADEUS ÁFRICA!
Oceanic Independence, o navio que nos trouxe para Portugal.
A bordo, em gabinete adequado ao seu trabalho, encontrava-se uma funcionária do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – IARN, de nome Lígia. A sua missão consistia no contacto com as famílias nucleares e indivíduos solitários – constantes da relação em sua posse – para efeitos, se necessário, de alojamento em Portugal.
Às 8 horas da manhã do dia 7 de Novembro o majestoso transatlântico “Oceanic” entra na barra do Tejo. Às l0 horas atraca no Cais da Rocha, Lisboa. É colocada a escada para o desembarque. Mas tal não acontece. A “mando”duma comissão, previamente constituída – apoiada por todos –, o desembarque só teria lugar mediante a troca dos escudos “coloniais” por escudos portugueses. O refeitório, servido o pequeno-almoço, foi encerrado. Mesmo num entra e sai da funcionária do IARN para atender à situação, manteve-se o impasse. Ante tal momento, foram distribuídas latas de feijão, fruta e leite.
Às 22 horas é anunciada a troca da moeda, no aeroporto. As deslocações seriam de autocarro, em grupos de 30: cabeças dos agregados familiares e solitários. Em qualquer das situações, a troca era de 5.000$00 apenas! Atendidos os dois primeiros grupos – dos quais fiz parte – as operações foram suspensas.
No aeroporto, pelo mesmo motivo, assistia-se a uma situação confrangedora: na zona das chegadas, gente deitada no chão, enquanto os mais fortes, revoltados, mantinham-se firmes.
No dia 8 foram distribuídas pelo IARN senhas individuais de almoço, servidos pelos restaurantes próximos do cais.
Com a tripulação do navio a dar sinais de impaciência, a meio da tarde os passageiros espalham-se pelas varandas e convés com gestos de manifesto protesto. Depois dum constante sobe e desce, é retomada a troca de moeda no aeroporto. A comissão recusa mais deslocações. Exige que a operação fosse efectuada no navio. Quase de imediato entram dois “bancários”, com suas maletas, acompanhados por funcionários do IARN. Terminadas as transações, o pessoal abandona o navio. E, de seguida, descarregadas as bagagens, atiradas brutalmente para o chão pelos malvados estivadores.
De rol nas mãos, os funcionários do IARN fazem a chamada e em simultâneo a separação em grupos – de antemão selecionados – para diversos locais de alojamento. Calhou-nos o Grande Hotel da Figueira da Foz. Onde, acompanhados pela S.ª Lígia, chegamos já próximo da meia-noite. Distribuídos os quartos – coube-nos o 421 –, mesmo àquela hora tardia, foi-nos servida, nos aposentos, uma merenda.
Desgraça nossa: estávamos em Portugal; num Portugal sem rei nem roque… Em Angola, éramos cidadãos portugueses; da fronteira de Santa Clara ao porto de Walvis Bay, refugiados portugueses; em Portugal, apátridas! Os Bilhetes de Identidade de Cidadão Nacional, encimados com a distinção
“R E P Ú B L I C A P O R T U G U E S A”
passaram a imprestáveis; nem sequer aceites para transcrição e posterior emissão dum novo B.I. de Cidadão Nacional. Para o efeito, era exigida a certidão de nascimento e a dum ascendente português constante na certidão. Em certos casos difícil e noutros impossíveis de satisfazer: daí o arrastar dos processos durante muitos anos e, até, esquecidos!
Do execrável e enganoso Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – covil de ladrões – só a palavra retorno produziu efeito: enriqueceu o vocabulário com o douto adjetivo:
Neste ano, já é a terceira vez que vos escrevo acerca de 40
anos volvidos sobre diversos acontecimentos pessoais e familiares.
Desta vez, vou partilhar convosco a nossa parcela,
considerando a minha família nuclear e próxima, no êxodo que constituiu a vinda
de muitos milhares de refugiados deAngola, Moçambique e dos outros territórios.
Por diversas formas vieram, como é consabido. No caso de Angola: grande parte
dos refugiados veio pela ponte aérea paraPortugal; outros ainda vieram em
navios diretamente de Angola para Portugal enquanto possível; outros milhares,
refugiaram-se no Sudoeste Africano (hoje Namíbia) e na África do Sul, onde
alguns conseguiram por lá ficar, mas, grande parte destes certamente teve de
rumar para Portugal também, ou para outros países, quer por via aérea, quer por
navios fretados para transportar os refugiados que estiveram temporariamente
alojados em campos. Os números de cada situação e os globais são um tanto
imprecisos, consoante as fontes, mas todos juntos fomos largas centenas de
milhares de refugiados das antigas províncias ultramarinas.
Ora, narro agora o nosso caso, o da odisseia do meu grupo familiar. Era outubro
de 1975. Face às condições de grande instabilidade político-militar na pré-
independência de Angola, insegurança, lutas constantes entre forças do MPLA e
da UNITA na cidade do Lubango, onde vivíamos nessa conturbada época, aliada à
crescente escassez de bens de primeira necessidade, deficiência na assistência
de saúde, enfim a zona e a cidade a aproximarem-se quase do colapso social,
comercial e económico. Tempos pois estonteantes, de muito risco, altamente
inseguros sob todos os pontos de vista, pelo que, fomos forçados a tomar a
resolução de também partir... Tal qual, como milhares de refugiados já o haviam
feito antes de nós, e como outros o fizeram depois. Era a salvação imediata. E
o destino que escolhemos, face a haver uma ponte aérea, foi Portugal, reforçado
por alguns de nós sermos funcionários públicos, o que permitiria, prometia-se,
e veio a acontecer, ingressar no funcionalismo em Portugal, num criado quadro
geral de adidos.
Eis, pois, a constituição desse grupo, desta família que fora de José Maria
Rodrigues (este falecido, em condições confrangedoras, no Lubango pouco tempo
antes, em 26.09.1975, como já relatei noutro escrito que vos enviei): Irene,
minha mãe, na época com 64 anos; sua afilhada Joana, jovem de 14 anos; meu
irmão Higino, 32; sua mulher e minha cunhada Aldina, 29; seu segundo filho
Bruno, com tenra idade; minha mulher, Helga, 23; com nosso bebé Henrique, quase
recém-nascido pois tinha um mês e meio de idade; minha filha Graça, 8; e eu,
Júlio, com 31 anos. Nove pessoas ao todo, sendo cinco adultos, três crianças e
uma adolescente.
Nas semanas anteriores, foi conseguir encomendar caixotes nas últimas
carpintarias em funcionamento na cidade, e ir enchendo-os com o possível:
máquina de lavar roupa, outros pequenos eletrodomésticos, máquina de costura
Singer (da minha idade, pois entrou na minha casa em Caluquembe no dia em que
nasci e que ainda hoje a conservo), tapetes, carpetes, utensílios, aparelhos
diversos, bibelôs, imensos livros (meu pai possuíra uma biblioteca razoável e
havia sido um grande leitor), algumas mobílias e peças de mobiliário, álbuns de
fotografias, slides, malas da cânfora, bar chinês, projetor de slides, écran,
utilidades diversas e inúmeras outros objetos que era possível meter em uma
dúzia de caixotes, de diversas cubicagens. Tentávamos encaixotar a nossa
vida…disfarçar o vazio que crescia na nossa alma.
A minha tia Madalena, prima direita e cunhada de minha mãe,
foi incansável na ajuda que nos deu a arrumar os caixotes. Mas de notar que a
maioria desses bens encaixotados pertenciam ao recheio da casa de minha mãe, e
que fora do meu pai; bem como ao recheio da casa do Higino e Aldina, que
arranjaram igualmente os seus caixotes. Mas, os pertences, meus e da Helga,
constituídos sobretudo pelas muitas prendas de casamento, este ocorrido ainda
não havia um ano na ex-Nova Lisboa (Huambo), ficaram por lá, visto que as
condições de insegurança ainda foram piores, mais insuportáveis que as do
Lubango e já não foi possível aos pais da Helga, onde os nossos bens se
encontravam guardados, providenciarem o seu transporte para Portugal. Quanto
aos automóveis, consegui ir a Moçâmedes, uns tempos antes da nossa partida,
despachar o carro de meus pais, um Audi 100 LS, e o meu, um Autobianchi A111.
Estacionei os dois juntos no imenso parque de viaturas à espera de embarque;
ainda pensámos meter coisas nos porta-bagagens mas, receosos, não o fizemos, e
ainda bem, pois só o meu carro chegou a Portugal, o de meus pais nunca
apareceu…Houve quem o tivesse visto a circular, tempos depois, numa cidade em
Angola, subtraído assim ao embarque... O Higino e a Aldina também despacharam
dois automóveis, um seu (Mini) e outro (Lancia) dum cunhado os quais tiveram o
mesmo destino, isto é, nunca chegaram a Portugal.
Voltando ao Lubango: lá conseguimos ainda alugar uma
camioneta que levasse os caixotes à estação do Caminho de Ferro, sita no bairro
de Stº António, que seriam transportados para o porto de Moçâmedes (hoje
Namibe) a fim de seguirem para Lisboa. Todos estes afazeres, formalidades
alfandegárias, requerimentos, guias de desembaraço, etc., quer em relação aos
bens, quer a nós próprios, eram conduzidos num stress indescritível, com muita
tensão e nervos, e sob emoção e tristeza, face ao abandono iminente de nossas
casas e de muitos outros pertences, ainda que alguns fossem móveis eram
intransportáveis, mas sobretudo chorávamos por dentro pela saída, forçada pelas
circunstâncias, da nossa, e de nossos ascendentes, querida
terra angolana, e assim deixarmos os nossos sonhos. E ficámos apenas com a
memória. Talvez alguns acessos de tristeza estivessem a ser anestesiados no
momento, pela psicose coletiva que se estabeleceu, ao haver todos os dias um
número crescente e imparável de refugiados de partida da cidade, entre
conhecidos, desconhecidos, amigos, familiares. E, ainda, no coração de cada um,
decerto, haveria uma réstia de esperança de um dia no futuro voltarmos a viver
e trabalhar na nossa querida terra angolana…que não desejáramos abandonar (mas
a este grupo familiar que relato nunca aconteceu alguém voltar a viver em
Angola, pelo menos até à atualidade…).
As datas que refiro de seguida, penso estarem certas. Assim,
o dia 10 de outubro de 1975 chegou. Foram as despedidas finais emocionantes, da
prima Isaura que chorava, da Madalena que não chorava mas tinha um semblante
tristíssimo (ela também, sem o imaginar na ocasião, teria de refugiar-se em
Portugal meses depois), etc. Era o meu pai que ficava e deixávamos… lá no
cemitério da Mitcha. Tomámos um comboio na estação de Stº António, aliás a
estação que servia e serve o Lubango, visto que na época a antiga já fora
desativada. Chegava a noite desse dia. Nós, e dezenas ou centenas de outros
refugiados tomámos o comboio. Lembro-me que, pelo menos, a cabine onde
viajámos, não tinha luz e fizemos a viagem de noite inteira às escuras… O meu
amigo de peito e colega Pissarra, padrinho de casamento da Helga, também viajou
nesse comboio e connosco continuou, passando praticamente a fazer parte do
nosso grupo familiar.
Chegados pela manhã do dia 11 a Moçâmedes, fomos desembarcados no porto
comercial. Estava-nos destinado um navio da Armada Portuguesa, a navio tanque
reabastecedor S. Gabriel (que hoje já não existe; ver foto). Ali fomos
arrumados para pernoitar da forma como foi possível, mais ou menos assim:
mulheres e crianças na coberta, homens no convéns, praticamente ao relento ou
nos “varandins” laterais. Não nos queixávamos, resignávamo-nos. E, lá se
iniciou a viagem marítima pela costa angolana, julgo que já era da parte de
tarde, rumo à capital Luanda. Levávamos connosco farnéis e alguns pertences em
malas ou sacos que nos podiam acompanhar. Não tivemos frio, pois em Angola, em
outubro, está temperatura amena, não choveu, e dormimos, os homens, encostados
uns aos outros, lá em cima, éramos muitos e havia que rentabilizar o espaço, e
as mulheres e crianças em beliches na coberta, como já indicámos atrás.
Navio tanque reabastecedor da Armada Portuguesa
Fotos seguintes: 11 e 12.outubro.1975
No porto de Moçâmedes enquanto se aguardava o
embarque
(Helga com bebé Henrique, Joana, Irene e Aldina)
Idem, quase a embarcarem (em primeiro plano
consegue-se ver o nosso grupo familiar)
Pela manhã, começava o dia 12, até avistámos golfinhos, pois
quando navegávamos no final do percurso já o sol rompera, até aportarmos em
Luanda.
Irene, Higino e Aldina a bordo do navio reabastecedor da
Armada Portuguesa
S .Gabriel, rumo a Luanda
Aguardámos algum tempo no navio e depois fomos levados em
autocarros, julgo lembrar-me, para o antigo quartel do batalhão de
paraquedistas 21, nos arredores de Luanda, em Belas. O qual estava feito num
autêntico campo de concentração, degradado, com instalações sanitárias imundas,
falta de água com frequência. A Helga, o bebé e as mulheres e crianças lá
armaram melhor proteção, dos mosquitos também, numa antiga caserna e os homens
preferiram dormir quase ao relento, e no chão. O Pissarra continuava connosco.
Havia distribuição de alimentos e organização dos grupos que seguiriam nos
próximos aviões da ponte aérea.
E, faziam-se avisos e chamavam-se pessoas por altifalantes ou íamos a uma
secretaria saber informações. Felizmente para nós, apenas estivemos ali uma
noite e um dia, mais ou menos, nesse campo tão desolador e tão sujo já, do que
fora um impecável quartel. O Pissarra e eu, ainda conseguimos, arranjar forma
de irmos ao centro da capital, mormente para recolhermos os nossos processos
individuais nos serviços de veterinária de Angola, o que era facultado a quem
viesse ingressar no tal quadro geral de adidos.
No aeroporto de Luanda, na noite de 13 de outubro, pisámos
pela derradeira vez o solo angolano. Tomámos, um avião soviético,
apercebemo-nos disso no decorrer da viagem, rumo a Lisboa. Na cabine só
podíamos trazer o indispensável, pois malas e objetos considerados a mais iriam
no porão, não facultaram nada. Na barafunda da entrada para o avião, perdeu-se
o leite em pó e o biberão do Henrique. A bordo, lá conseguimos que as
assistentes arranjassem um biberão e outro leite, mas, para um bebé, foi uma
alteração rápida e daí, talvez, o desencadear dum problema de gastrenterologia
e desidratação que adveio dias depois em Lisboa, com o seu internamento, com
prognóstico muito reservado, no hospital pediátrico D. Estefânia, onde, à
partida, houve muita dificuldade em o internar, o que foi conseguido face à
sensibilidade dum médico espanhol de serviço. E onde o bebé, sem saber, lutou
pela vida durante talvez mais de dez dias. Voltando ainda atrás, à viagem de
avião para Lisboa: forneceram-nos refeição a bordo e tentámos dormir, tão
exaustos estávamos, psíquica e fisicamente.
Chegámos a Lisboa manhã cedo, era o dia 14 de outubro de
1975. A Cruz Vermelha encaminhou a Helga e o bebé para um local mais recolhido
naquelas instalações do edifício do aeroporto, espaços repletos
impressionantemente de pessoas, a maioria sentada ou deitada no chão, atapetado
com cobertores, com a humidade e o frio já do outono, tudo para nós
desconhecido e quase nos amedrontava. Num balcão improvisado do Banco de
Angola, trocaram-nos 5 contos de escudos angolanos, por pessoa, por 5 contos do
dinheiro de Portugal, embora trouxéssemos, alguns de nós,
dezenas ou centenas de contos angolanos das nossas
poupanças. Dinheiro angolano esse que se tornou lixo. Porém, outros refugiados,
sabia-se, nem os cinco contos tinham para troca.
Nesse dia ainda, a Helga e eu, apanhámos um táxi para irmos
para o parque municipal de Monsanto procurar a casa dum amigo que nos veio a
receber durante algum tempo; o táxi deixou-nos algures por Monsanto, perante
uma morada incerta, e ainda tivemos de muito andar a pé para dar com a casa do
nosso amigo, funcionário do parque, o Pedro Baptista. Desconhecíamos que o IARN,
Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, nos podia ter dado alojamento em
hotéis. Mais tarde, viemos a fruir desse apoio. O Higino, Aldina e Bruno foram
logo encaminhados, sem muito esperarem, por um cunhado, o Luís que já chegara a
Portugal há semanas, para um hotel em Colares. E assim, o grupo separou-se logo
à chegada a Portugal. Foi pena, mas foram as circunstâncias. O Pissarra seguiu
para o norte para junto de sua família.
E, fomos tentando resolver as nossas vidas de imediato, de desenrasque em
desenrasque… De luta em luta. De fila em fila.
Do grupo familiar, cada um teve o seu percurso pessoal e
profissional nestas quadro décadas. Sucintamente: minha mãe, Irene, foi
doméstica, viveu sempre comigo, faleceu aos 99 anos em Sesimbra; Joana, afilhada,
trabalhou em diversos locais, tem um filho, e hoje vive e trabalha em
Inglaterra (já foi algumas vezes ao Lubango); minha filha Graça trabalhou em
várias empresas, teve três filhas, reside no concelho do Seixal onde é
empregada duma indústria; Higino, meu irmão, reside no concelho do Seixal, tem
três filhos de Aldina, que foi professora do ensino básico, e faleceu aos
cinquenta e tal anos, em 2002, foi sepultada onde vivia ultimamente, em Mafra;
seu filho Bruno, é hoje bombeiro e reside na Ericeira; Helga é funcionária e
reside em Sesimbra, tivemos mais dois filhos para além do Henrique, este
licenciou-se, é funcionário municipal em Sesimbra e reside na Amora, tem três
filhos; por fim, eu, Júlio, fui médico-veterinário municipal em Sesimbra, hoje
já aposentado, e onde resido (fui duas vezes à nossa terra Lubango: a primeira
em 2003, com o Henrique também; a segunda, em 2013, sozinho, ao Lubango e
Caluquembe, esta minha terra natal).
Fez há dias, em 14 de outubro, 40 ANOS QUE CHEGÁMOS A
PORTUGAL. Outras terras, outras gentes, outras vidas. Os tempos seguintes, ou
seja, os primeiros dias, semanas, anos e décadas, duma vida nova, diferente,
difícil e desenraizada, onde a amargura pela saudade da terra e da vida que
deixámos em definitivo lá longe nunca se desvaneceu, ficarão para outros
escritos, talvez.
Carro bóer – Réplica à escala 1 – 5 m. Construído por Jorge Rodrigues
1884 – ODISSEIA DUMA GENTE - PRIMEIRA PARTE
Duma Ilha para um continente
A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçâmedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.
PORTELA DO BRUCO “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.
Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla.
Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.
Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.
Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.
Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.
Carro boer puxado por vária juntas de bois (foto internet)
Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.
Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…
Do mar para a serra – penosa viagem
Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.
Carro boer puxado por vária juntas de bois atravessando o Caculuvar (foto internet)
Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.
Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.
A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.
Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.
Mais desencantos – Barracões
Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.
Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas commalói.
(Extraído do livro “A Colonização de Terras Altas da Huila”) de Carlos Alberto Medeiros Primeiras casas de colonos madeirenses na Chibia
Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.
Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.
Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.
Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:
NESTE LOCAL INSTALARAM-SE
OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES
EM 1885
Lugar dos barracões
Lugar dos barracões. Foto de Armindo Ferreira da Colorama (Luanda)