Segunda Colónia
A 19 de Junho de 1885, o barco de guerra “África” lança âncora na baía de Moçâmedes. A bordo um contingente de 336 emigrantes, provenientes da Madeira, com destino, tal-qualmente à primeira colónia, ao planalto da Huíla. Este contingente passa a ser conhecido por “Segunda Colónia de Madeirenses”. Ao desembarcarem, para descrédito e vergonha dos governantes da vilória de Moçâmedes, assiste-se à repetição do episódio ocorrido com a primeira colónia sete meses antes: não foram providenciados atempadamente os meios de transporte para o destino final. Motivo? Porque o governo pagava (quando pagava…) tarde e mal os serviços prestados pelos transportadores. Daí os proprietários dos carros – na maioria bóeres – só aceitarem trabalhos mediante pagamento adiantado.
Carro Bóer de passageiros – Humpata “ A colonização de Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Carro Bóer– Moçâmedes “ A colonização de Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Sem outra alternativa o governador viu-se obrigado a entrar em negociações com os “temidos” bóeres da Humpata. Ultrapassado o delongo impasse, os carros desceram a Moçâmedes; e a 1 de Agosto, após uma enervante espera de 40 dias, a colónia, em conjunto, enceta viagem em caravana formada por 30 grandes carros-bóer.
O percurso desta segunda colónia, comparado aos dramas da primeira, contados nos capítulos anteriores, pode-se considerar sofrível. Em Moçâmedes, essa gente, embora mal acomodada, ali e até ao sopé da Chela, graças à época de cacimbo, o calor foi suportável. A partir dali, gradualmente, foram sentindo o frio das altitudes; mas, em compensação, livres da chuva e consequentes atoleiros que muito contribuiu para a redução do tempo do trajecto. E o mais importante, a expectativa destes na indescritível consolação do reencontro com os seus patrícios, com tecto preparado para os acolher, cumprido no dia 19 de Agosto de 1885 – Quarta-Feira.
Breve pausa
Vou interromper aqui a história das Colónias Madeirenses para lembrar, em poucas linhas, um pormenor deveras desonroso para os fautores e de meditação e tristeza para todos os huilanos que se prezam.
O Lubango – pré Sá da Bandeira
Topografia – Tratava-se de uma colina plana, abraçada a noroeste, oeste e sudoeste pela Cordilheira Marginal; e a norte, este e sul por densa mata de espécies lenhosas, arbustivas efrutíferas. Situava-se entre os rios Mapunda e Mucufi. Estes detalhes poderão ser apreciados num esboço cartográfico de 1890, a anexar.
Toponímia – Existem duas versões sobre a origem do nome: “Caluvango”, nome dum soba dali; e “Lubango”, nome dum rio, afluente do Mucufi. Esta terra, entre altas serras e rios de curso permanente, representava o território real embelezado com a sua “Ombala”, sob frondosasmulembas, residência do soba (Rei) e da sua corte. Em derredor desta habitavam os súbditos do monarca a cuidar dos arimbos e gados. Em 1874, descoberta esta pequena e edénica terra, foi logo cobiçada e eleita para estabelecimento de colonos: madeirenses e outros. Todavia, a zona teria que ser primeiro “desnegrada”!...
O governador de Moçâmedes, sem efectivos militares à altura para expulsar o soba e a sua gente, confia a “obra” ao capitão Nestor da Costa, latifundiário na região da Bibala no cultivo de algodão, para exportação, e cana-doce para produção de aguardente. Este capitão, com a mira no saque e uma oportunidade para a captura de escravos para as suas plantações, com uma força formada por seus serviçais e outros indígenas da zona (impelidos), ataca o temível soba conhecido por “Cabeça Grande”. Os invasores, após breve escaramuça, foram repelidos e perseguidos até grande distância.
O referido soba, ao tomar conhecimento de que estava a ser preparada nova invasão, esta com o auxílio dos aguerridos bóeres, a cavalo, fugiu para a Cuama. Sem o seu rei o povo dispersou-se deixando a região deserta. Asneira semelhante havia sido praticada em 1881 quando, para a instalação dos bóeres na Humpata, muitas famílias indígenas foram dali deslocadas. Mas com uma diferença; “foram gratificadas!”: fazendas no valor de 46.080 réis (o equivalente a 8 vacas) e três ancoretas de aguardente (60 litros) comprada em Capangombe a 160 réis a canada (1,4 l). Muito generoso esse Nunes da Mata, governador de Moçâmedes! Muito mais gastou ele na deslocação para presidir à cerimónia de inauguração da colónia bóer, chamada de “S. Januário”, a 19 de Janeiro de 1881.
Rua principal do Lubango, nos fins do século XIX; corresponde a actual Rua Pinheiro Chagas “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
Disseminação dos madeirenses
Sob a “direcção” do emproado e prepotente Câmara Leme os 558 colonos, amontoados nos Barracões, foram assim distribuídos: Chibía-44 (director desta nova colónia, o capitão Joaquim Afonso Laje); Humpata-55; sede do concelho da Huila – 32 (não assinalados). Nestas localidades a população branca anterior era: Chibía – 3; Humpata – 44 (além de cerca de 350 bóeres); Huíla – à volta de 100. Após este desmembramento ficaram nos barracões 424 pessoas. Estes números poderão ser apreciados nos mapas a inserir mais adiante.
Nascimento físico da colónia Sá da Bandeira
Ainda em 1885, homens e adolescentes, enquanto uns poucos ficavam de guarda nos barracões, os demais, ao amanhecer, de enxadas e pás aos ombros, calcorreavam os 5km até aos antigos domínios reais, agora “desinfestados”. Face aos perigos de emboscadas da gente do soba “Cabeça Grande” que embora escorraçado não se deu por vencido, o grupo era escoltado por três praças e uma dúzia de colonos (que nunca tinham visto uma arma de fogo) armados com obsoletas e ferrugentas espingardas de “pederneira” do século XVII. A cavalo, chicote na mão e revólver de tambor à cinta, seguia o D. Câmara Leme. Os primeiros trabalhos consistiam no rasgo de levadas a partir dos rios já referidos, na desmatação da área prevista para a abertura das ruas, construção de casas e arroteamento de pequenas parcelas para culturas diversas. Ao entardecer o grupo volta aos barracões. Esse vaivém prolongou-se por alguns meses. Para além dos perigos das emboscadas dos nativos havia também o perigo de ataques de leões que abundavam na zona; daí não serem aconselháveis saídas à noite.
Mais contingentes e seus frutos
De 1888 a 1892 as populações das colónias já citadas foram aumentando com a chegada de mais madeirenses aos Barracões e em seguida deslocados gradualmente até um total de: Chibía – 667; Humpata – 91; Huíla – nada consta! … Os restantes – 823 – ficaram nos Barracões, com destino à colónia Sá da Bandeira e a do Caculuvar. A movimentação e números descritos constam de mapas oficiais a incluir mais adiante.
Em Sá da Bandeira, com os números de homens válidos a aumentar a cada ano, foram abertas novas levadas, distribuídos talhões para a construção de casas de pau-a-pique e capim e alargadas, com arados, as áreas para a cultivo de: cereais, legumes, leguminosas, espécies tuberculosas e bulbosas. Foram também plantadas, para ensaio, algumas espécies de árvores frutíferas.
TRABALHOS AGRICOLAS LUBANGO XIX “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
No primeiro e segundo ano os resultados agrícolas foram desanimadores. Causas: insuficiência de bois de tracção para as charruas; sementeiras efectuadas fora das estações próprias; sementes de má qualidade; e o pior, incompetência e teimosia dos pseudotécnicos agrários importados de Portugal. Graças aos conhecimentos levados da Madeira e as experiências adquiridas no terreno, os proveitos foram melhorando progressivamente. Há que reconhecer, embora pouco amistosos, a utilidade dos bóeres na venda de bois mansos, cangas, peaças,brochas, etc. Artes que, na época, só eles dominavam.
Imperdoável – símbolos perdidos
Lamentavelmente, para nossa vergonha, da “Ombala” nenhuma mulemba foi poupada nem sequer assinalado o seu lugar. O rio “Lubango”, devido ao seu desvio na fonte para as levadas, desapareceu: nem uma simples rocha foi colocada a assinalar o local do seu assoreado leito. Sorte semelhante sofreu o rio “Mucufi”. Não obstante mais caudaloso que o rio “Lubango”, por causa das sucessivas captações na sua cabeceira, o remanescente, ainda no seu curso superior, foi açudado, desviado para a levada que irrigava os campos de trigo do bairro da Machiqueira (de Machico). Esta levada acaba represada para mover os rodízios duma moagem de cereais. A partir dali, às curvas e contracurvas, transforma-se em regato e volta ao leito materno já confluído com o rio Mapunda, originando o Caculuvar que deu nome aos barracões e à maldita colónia. Depois de lhe roubarem toda a água, o Mucufi passou a expressão de mulola e reservatório de lixo. O rio Caculuvar vai engrossando ao receber os rios Nompaca, Tximúcua, Lupolo (ou Huíla) Txipumpunhime e alguns riachos. Depois de oferecer um pouco do seu caudal para regar os grandes campos dum outro Caculuvar, Txahungo e Missão Católica da Txihíta (Quiíta) entrega as suas águas ao rio “Cunene”, cujo nome corrompido de “Inênê”, significa enorme.
Entre a maledicência e a verdade
Pelos fracassos, em todas as áreas, de colonização dirigida, a culpa era sempre assacada aos madeirenses, apodados de: preguiçosos, incompetentes, bêbados, etc. e nunca assumida pelos irresponsáveis mandões. Confirmando-se assim um desabafo do ministro Sá da Bandeira: “Que os fracassos do desenvolvimento de Angola deviam-se aos maus governantes em Portugal e aos péssimos afilhados enviados para Angola”. Sem pretensões a juízos maniqueístas o que descrevi e o que irei acrescentar corresponde à verdade.
Foram esses humildes madeirenses, tão maltratados fisicamente e ridicularizados moralmente pelos “senhores” idos de Portugal e até por um conterrâneo, com todos os defeitos que injustamente lhes têm sido imputados, ninguém, minimamente esclarecido, se atreveria a desacreditar o seu gratificante legado. Foram eles, fustigados pela chuva, sol, vento e frio que desbravaram, aplanaram e – milagre (!) – conquistaram a merecida confiança e aproximação dos dóceis muílas tão hostis – com sobejos motivos – aquando da usurpação das suas terras.
LUBANGO 1969 RUA PINHEIRO CHAGAS “A Colonização das Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros



