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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Odisseia de uma gente II



José Maria Rodrigues


João /Maria José – seu primogénito

 


Foi com o apelido Rodrigues que, numa humilde casa, na Huíla, a 11 de Janeiro de 1905, veio ao mundo o primogénito de João e Maria José, que na PIA BAPTISMAL recebe o nome de José Maria – Zeca, para a família.

 


IGREJA DA MISSAO DO HUILAIgreja da Missão da Huila

 


Aos seis anos de idade entra para a escola da Missão Católica da Huíla. Foi seu professor o exigente e severo Irmão Menezes, sobrinho de seu avô Baltazar. Aos onze anos completa, com distinção, a instrução primária, único grau de ensino na época. Único em virtude da transferência, para Luanda, do seminário, que leccionava o ensino médio (equivalente ao depois ensino liceal mais contabilidade e teologia), que ali funcionou de 1882 a 1907. Nessa altura existiam apenas três lojas na Huíla, algumas perniciosas tascas e vadios funantes no centro e arredores. O grosso dos colonos, não só por obrigação mas como única fonte de rendimentos, dedicava-se exclusivamente à agricultura. Logo, todos os braços eram valiosos para as lides agro-pecuárias durante o ano inteiro; e o Zeca presta a sua ajuda em todos os trabalhos. Dotado de invulgar inteligência e com aspirações a um mais além, embora sempre obediente aos pais, não mostra vocação nem jeito para a vida rural.
 

sefaEstudantes da Missão Católica da Huila. Ao centro: Irmão Menezes; ao seu lado direito: António Rosa e José Maria

IRMAO MENEZESEstudantes do Seminário da Missão da Huila. À direita, de batina branca: Irmão Menezes;  à direita deste, sentado,  José, primogénito de Baltasar e Delfina


Aos doze anos vai para o Lubango trabalhar para Manuel Ricardo como empregado de balcão. À chegada sentiu algum choque ao deparar-se com a grandeza da vila, já Capital de Distrito, em contraste com o marasmo da pacata povoação da Huíla. Cerca de três anos depois, bem apessoado que era, facilmente se envolve com duas mulheres casadas, cujo caso, por imprudência, ameaçava passar às línguas do povo. Receoso de possíveis consequências, discretamente, retira-se para o Nanô (terras a norte) na companhia de Manuel Galo, onde este possuía uma das cinco lojas dispersas pelo antigo Caluquembe, no lugar que até hoje é conhecido por “Txicondombolo”: galo, no dialecto da região.

 

 


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Seguiu o seu destino enquanto para trás, inconformados, ficavam os pais e sete irmãos chorando já de saudades. Trabalhando na loja de Manuel Galo conheceu, entre os raros fregueses brancos, um Senhor de apelido Valdez, que fora em Portugal depois Benguela, um grande guarda-livros; agora a residir na margem do rio Cucala, onde abriu uma levada utilizada na rega de trigo, horta e pomar.

 

O Zeca, vendo em Valdez um mestre providencial, logo granjeou a sua amizade com objectivo definido: aprender com ele a profissão de guarda-livros. Senhor de invejável caligrafia e autoridade em aritmética – assimilação do competente professor Menezes – graças às lições e carinho do mestre Valdez, com facilidade alcançou competência para o exercício da profissão que almejava: guarda-livros, profissão, na época, elevada, quando o que contava era a competência e não um rectângulo de cartolina encaixilhado.

Este Senhor Valdez, cujo desvelo pelo seu pupilo Zeca perdurou até o fim de seus dias, era primo de A. Valdez dos Santos, distinto e honesto advogado na Rua dos Fanqueiros e director do imparcial “JORNAL PORTUGUÊS de Economia e Finanças”, silenciado pelo 25 de Abril! Era tio do marido de Lucinda, filha do filósofo e respeitado António Martins da Silva, de cognome Mussorovera (homem alto), o primeiro branco a estabelecer-se em Caluquembe – Cacomba.

 

Experimenta também o comércio ambulante (funante) pelos quimbos (aldeias), que consistia na permuta de lenços, mantas, tabaco e bugigangas; a troco de mel, cera e peles de bovinos. Mas, nas cansativas caminhadas, ingestão de águas inquinadas, fraca alimentação de lucangos (milho torrado), batata-doce e picadas de anófeles (mosquito transmissor da malária) o resultado foram as sezões, a disenteria e uma infecção num pé que o prostrou durante alguns dias.

 

Mas, mesmo debilitado, conserva as mãos firmes para empunhar a pena e a mente incólume para as operações aritméticas que ao longo de muitos anos lhe foram extremamente valiosas. Durante algum tempo trabalha, já como guarda-livros, no estabelecimento comercial de Manuel Jesus, localizado no extremo norte de Caluquembe, a cinco quilómetros do “Txicondombolo”. Temendo um envolvimento com Elvira, filha do casal Jesus, discretamente, sem dar azo a ressentimentos que afectasse a estima de que goza junto do casal Jesus, muda-se para a Chicuma/Ganda, como guarda-livros de Gouveia, Mendes & C.a. Teria 22 anos.

 


Ali se manteve cerca de seis anos; prova do seu valor e da razão da inestimável amizade consolidada e perpetuada entre este e a família: Mendes, Dª Urbana - esposa e seu unigénito Manuel José, padrinho da Lucília.

 

Foi este Mendes, muito respeitado, que lhe faculta mercadoria suficiente para a instalação duma apreciável loja na Cacomba à sociedade com seus primos António e João, que assumiram o negócio, enquanto ele continua no emprego.

 


Acaso ou destino

 


Em 1930, provenientes de Olhão – Algarve, desembarca no Lobito Maria da Conceição Santos, cinquenta anos, natural de Tavira, filha de Manuel Pedro dos Santos e Francisca da Conceição. Viúva de Amador Cristiano, natural de São Pedro – Faro, filho de Manuel Guerreiro e Luísa Gonçalves. Maria da Conceição levou consigo seus filhos Maria dos Mártires, 25 anos e Joaquim, 15 anos; e também sua nora Maria do Carmo, 22 anos, com seu filho Valentim, de 1 ano de idade. No Lobito, à sua espera, estava seu filho Valentim Amador Reis, 21 anos, que fora para Angola um ano e pouco antes, marido de Maria do Carmo.

 

5Maria dos Mártires


De comboio, num percurso de 300km, em 10 horas chegam à Ganda. E dali, de camioneta, até à Ebanga, a 30km, onde o Valentim era empregado de Armando Mendes Gouveia.

Registe-se que este Gouveia, mais conhecido por “Suco iacãi” (Deus das mulheres), era irmão uterino de António Duarte Moura,   homem honesto e grande empreendedor, da Chicala, Caluquembe, Lubango e Bomba, fixa-se na margem direita do Rio Qué onde, em 30 anos, ergue o grande complexo “Agró-pecu-industrial” com especial destaque para a moderna fábrica de salsicharia, a maior e melhor em maquinaria e qualidade das cinco que laboravam no distrito da Huíla. Este complexo foi baptizado de Vila Branca, nome de sua filha.

Da Ebanga, acompanhada de toda a família, Maria da Conceição Santos muda-se para Caconda, acolhida por seu irmão uterino, Joaquim Luís Rascão, um pouco mais novo que ela. É assim que Valentim Amador, com algum dinheiro que a mãe levou, fruto do seu modesto mas honroso trabalho no fabrico e distribuição de pão pelas redondezas de Olhão e alguma ajuda de Rascão, se estabelece definitivamente em Caconda em casa e de conta próprias. Com a prática e veia para o negócio, coadjuvado pela sua incansável mulher, Maria do Carmo, conseguiram, ao longo de 40 anos, alcançar uma desafogada situação.


Destino consumado


Foi na Ebanga onde o Zeca, já amigo do Valentim, conheceu Maria dos Mártires. Desse encontro nasce um mútuo sentimento de afecto que, mesmo contra a vontade da mãe, logo deu em namoro. Um ano depois, na Igreja da Missão Católica de Caconda, é celebrado o matrimónio, presidido pelo Padre Camillo Laagel.

 

 

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Tempos difíceis


A coincidir com o casamento, Angola passava também pelos efeitos da crise económica mundial acumulada desde o ignóbil assassinato do rei D. Carlos e a nefasta implantação da república, em 1910. Com a mudança de sistema, imposto à força das armas, instala-se a desordem e a economia entra em derrocada. Transcorridos 16 anos, com nomeações e quedas de 40 governos, inflação galopante, inevitavelmente, foi declarada a situação de bancarrota.

Convidado pelo Marechal Carmona, Presidente da República, o Doutor Salazar, exigindo plenos poderes sobre todos os ministérios, assume a pasta das finanças. Em quatro anos, sem aumento de impostos, foi retomado o equilíbrio financeiro, e o orçamento do estado, antes com elevados défices sistemáticos, inverteu-se em superavit. Só que, de tal recobro, nada tocou a Angola. Tão-pouco constituiu surpresa. Desenvolvimento e progresso, salvo algumas boas vontades (abortadas), foram “coisas” que nunca preocuparam as tacanhas mentes dos “doutos timoneiros” da nação colonizadora, (assunto a retomar na segunda parte).

Ora, Angola não escapou ao descalabro. Agravado com a mudança da moeda réis para escudo: a conversão foi de mil réis por um escudo. Resultado: os réis passaram a “chamiços e a ritas” (cédulas de recurso sem sustentabilidade), a circulação fiduciária insignificante e as compras e vendas por permuta. Com a introdução da moeda “angolar” as transacções passaram a cinquenta por cento e, graças (perdão) à segunda guerra mundial a proporcionar as exportações de tudo, a situação foi melhorando.

Nova experiência – esperanças goradas


Assim, para enfrentar tal crise, as pessoas tiveram que recorrer a qualquer actividade para, pelo menos, obterem o mínimo do seu sustento. Foi nesse período, deveras crítico, que o Zeca e a sua Maria aventuram-se rumo ao Cuilo, 20km a sudoeste de Caluquembe, para uma minúscula casa próxima de um grande eucalipto, a fim de se dedicar à cultura de milho e trigo nos terrenos de Manuel Jesus onde existiam já levadas alimentadas pelo rio Cuilo. O Zeca já conhecia bem este Cuilo, talvez dos tempos em que trabalhou com Manuel Jesus, pois foi ali que “arranjou” em 1923, o seu filho António, primogénito da Mumbanda, filha do Katxari. Esta Mumbanda, casou depois com Francisco Txóia de quem teve uma filha de nome Maria, irmã consanguínea de Teresa. Este Txóia, banguela dos incisivos inferiores, preparado pela Missão Católica de Caconda, além de agricultor, foi catequista da localidade - Catxolocoto - até o fim da vida, 1974, em cujo velório estive presente na companhia da Lucília, Camilo e Juliana.

Estes terrenos, que bem conheci, estendiam-se pelas duas margens planas do Rio Cuilo, numa extensão de aproximadamente 2/3 km por 500/600 m de largura. O solo, de textura argilo-arenosa, era bastante fecundo. Sei que, no amanho dos campos, foram usadas grandes charruas “Hansnek”, de duas aivecas fixas, importadas da África do Sul, puxadas por seis parelhas de bois

Prática comum, pelos agricultores brancos, no mesmo campo faziam-se duas sementeiras num ano: a de milho, com ciclo vegetativo de 5/6 meses, princípios de Outubro a fins de Abril; e a de trigo, com o mesmo ciclo, de princípios de Maio a fins de Setembro. Esta prática rotativa proporcionava duplo proveito: a obtenção de duas colheitas e a utilização da palha, como fertilizante orgânico, lançada nos sulcos por um ou dois homens a acompanhar a charrua, enterrada pela leiva seguinte. O cultivo do milho, fácil e económico, a menos que ocorresse uma estiagem prolongada, a colheita era sempre certa, cuja produção chegava a atingir 50 sementes; como se dizia na época e não x quilos por hectare. O trigo requeria mais cuidados: solos bem amanhados, regas por gravidade a cada semana, vigiar a passarada desde o engraecer até a ceifa, a partir de meados de Setembro. Havendo o perigo de inesperadas chuvadas durante a sega, os molhos eram empilhados em grandes barracões de paus, cobertos a capim. Em seguida procedia-se à debulha com máquina manual ou, na falta desta, por trilha em grandes eiras térreas compactadas a maço e bosteadas. A partir daí outras operações se seguiam, até ao apuramento do limpo grão que variava, conforme a fertilidade dos solos, entre 10 a 30 sementes.

Os resultados da cultura do trigo, ao contrário do milho, eram sempre problemáticos, pois os contratempos, por sorte dispersos e em áreas restritas, aconteciam: a queda de uma forte geada sobre as searas, assim que o sol aquecia, de exuberante manto verde na véspera, transforma-se na cor do capim da anhara, em Agosto. Estava morta! Um ataque de ferrugem que acontecia quando o grão estava no estado leitoso, em poucos dias a seara estava morta. Nem o gado lhe tocava! Um ataque de piolho, a planta ia adquirindo uma cor cinzenta passando a amarelo até secar.

Gafanhotos

Falei dos cíclicos contratempos que espreitavam os campos do “mesopotâmico” trigo. Mas o maior destruidor, a oitava praga que Deus mandou contra o Egipto, ressurgia, mais uma vez em Angola: os gafanhotos, praga acridiana por que ficou conhecido esse calamitoso acontecimento. Em 1931 – 1932 e 1936 – 1937, entre Maio e Julho, apareciam, no céu azul, altas e densas nuvens de gafanhotos castanhos ao ponto de ofuscar o sol. Como voavam ao sabor do vento, se este não lhes fosse favorável em direcção às searas, desapareciam para pernoitar, muitas vezes, próximo do “alvo”. E o espectáculo repetia-se nos dias seguintes, sempre na parte da tarde, até que o vento soprasse de feição e fraco – 7km/h. Aí, baixavam sobre os verdes campos para a voragem. Ao contrário do salalé (térmitas), que traça as plantas pela base, os gafanhotos principiam pelas pontas, em ininterrupto adejo para que, com os seus sete centímetros de comprimento e uns bons gramas de peso, a planta se mantivesse na vertical devorando-a até ao chão. A devoração, conforme a altura das plantas, podia durar alguns dias até deixarem a terra completamente nua. Com um sistema digestivo de tripa única, à medida que abocanhavam as plantas, automaticamente eram excretadas para logo servirem de banquete à passarada.

 


image_thumb[10]Praga de gafanhotos

 


Momentos antes do ocaso, os gafanhotos abandonam as searas para pousarem nas árvores mais próximas devorando, durante a noite, folhas e casca. De manhã cedo quando estes, imobilizados de hipotermia, as mulheres indígenas, munidas de grandes tximbalas (quindas), os colhiam em grande quantidade que, diziam, ser um saboroso manjar.

Ante tal desespero, concentrávamos todas as defesas para salvar as pequenas áreas de batata e couves. À vergastada, antes destes alcançarem as plantas, e produção de fumo obtido de palha previamente preparada. Por natureza a cebola e os alhos, estavam sempre salvos: devido ao forte sabor, eram rejeitados.

Concluída a devastação, de repente, os gafanhotos, em compactas nuvens, alcançam altitude e, tal como inesperadamente surgiram, desaparecem. Vão pousar em campos abertos, de solos arenosos, para a desova, morrendo em seguida. Ao cair das primeiras chuvas, dá-se a eclosão, vão crescendo na forma de saltões desenvolvendo as asas para, nos meses já referidos, voltarem a atacar, cada ano em maiores nuvens.

Dois anos após o seu aparecimento foram formadas brigadas para combate à praga. Foi utilizado petróleo para alimentar as chamas sobre as áreas da postura e arsénico como veneno aspergido no momento da eclosão. Mas sem resultados apreciáveis: as invasões continuavam. Durante cinco anos a causarem prejuízos incalculáveis, inesperadamente, conforme apareceram assim desapareceram; levados pelo vento a soprar durante dias sempre no mesmo sentido em direcção ao oceano Atlântico, onde exaustos e famintos tombavam para delícia dos peixes.

CONSEQUÊNCIAS – O pão, complemento alimentar desde o princípio do mundo, desapareceu das mesas. Foi substituído pela broa de milho que, cultivado na estação das chuvas, nunca faltou; assim como o feijão e batata.

O que descrevi sobre a praga acridiana foi presenciada por mim, na Huíla, com 6/7 anos e o que fui sabendo (desova, desacridiação e desaparecimento) através de conversas entre os mais adultos sobre o acontecimento. Esta calamidade atingiu todo o sul de Angola onde existissem searas de trigo e outras verduras. E, claro, Caluquembe não escapou à invasão.

 

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Casal José/Maria dos Mártires


 

Regresso a Caconda

Para o casal ZÈ/ MARIA a permanência no Cuilo terminara. O momento obrigava a demanda de outras terras. Nova vida. Mas, antes da partida, para salvaguarda dos campos que se abandonados seriam ocupados por gente estranha, por vontade do seu proprietário, Manuel Jesus, os campos foram parcelados e distribuídos, a título de empréstimo, pelos casais que com eles trabalharam. Esta medida veio a traduzir-se, mais tarde, compensadora. Este povo, que bem conheci, concentrado na zona, era oriundo de Dongoena – sul de Angola – fugidos, com o seu gado, às constantes e ruinosas secas.
 

imageIgreja da Missão de Caconda

 

Assim, depois de quatro anos de trabalho infrutífero, se despedem do Cuilo. De material nada levaram consigo. Mas, como recompensa, levavam nos braços um bem mais precioso: os filhos Lucília e Camilo, ali nascidos, com seu irmão consanguíneo, António, para os embalar. Partiram, mas já com o travo da saudade daquele povo que ficava e lhes fora tão dedicado sem nunca os abandonarem, nem nos momentos mais difíceis; sem nada receberem em troca. Além da gratidão! O sentido do fim deste parágrafo, será confirmado mais adiante quando voltar a falar deste povo.

 

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De pé: António com o Camilo ao colo. Sentadas: Lucília e Mavilda Veiga

 

Agora cinco, transportados de tipóia pelos homens do Cuilo, vão residir por uns meses em Etonga – a 2km da Missão Evangélica – numa casa com moinho, movido a água, propriedade de António Gomes, mais tarde casa de retiro dos missionários evangélicos. Aqui nasceu o Edmundo, em 16 de Agosto de 1935. Um ano depois, em Caluquembe, a 10 de Agosto de 1936, nasce o Zeca, na casa por que passaram Carlos Maria de Freitas, António Santos, Emílio Mendes e por último o Saúl. Agora sete mudam para Caconda para uma casa arrendada.

 

11Casal José Maria Rodrigues, esposa Maria dos Mártires e seus filhos: Camilo, Lucilia, Edmundo e Zeca

 

Por essa altura o Zeca é também um profissional na arte do retrato fotográfico. Com câmara de fole, tripé, fotómetro e telémetro, desde o premir do botão do obturador até as ampliações, tudo era executado por si. Por inexistência de compartimento próprio improvisava, num canto do quarto de dormir, uma câmara escura para revelação das chapas de vidro que passavam a cliché (matriz) e posterior passagem ao papel. Exerceu este ofício subsidiário em especial na feitura de retratos aos pretos obrigatórios nas “cadernetas indígenas”. Fez também retratos e ampliações de pessoas e eventos, cujos clichés guardou religiosamente até meados de 1950. Infelizmente para, irreflectidamente, mandar enterrá-los; acto de que logo se arrependeu ao aperceber-se que havia destruído uma relíquia de imagens de grande valor histórico e sócio cultural jamais obtidos. 

 

O Infortúnio bate à porta
 

Em Outubro de 1938, em Caconda, Maria dos Mártires, ao oitavo mês da quinta gravidez, declara-se-lhe uma persistente uterorragia. Em pânico, o marido recorre ao Hospital da Missão do Bongo, a 100km. O Dr. Parson logo viu que ela corria perigo de vida. O seu estado requeria uma intervenção imediata: cesariana ou provocação do parto, ambas com seus riscos. Este optou pela provocação do parto. O feto foi expelido, mas seguido de grande hemorragia. Todos os coagulantes, a principiar pelo extracto da cravagem, ministrados para a estancar, não resultaram. A Maria dos Mártires, com trinta e dois anos, só com o marido a seu lado, foi-se esvaindo e entrega a alma à Deus. O Dr. Parson ficou arrasado, por não ter optado pela cesariana. Será que a cesariana lhe teria salvado a vida?... Repousa no cemitério de Caconda, ao lado da sua amada mãe Maria da Conceição!


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12Maria dos Mártires Rodrigues e  seus filhos: Camilo, Lucília, Edmundo e Zeca. Uma semana antes da sua morte.

 


O Zeca – só ele soube quanto sofreu por esta perda – logo tomou consciência da realidade ao pensar nos quatro órfãos, dependentes dos seus cuidados e desvelos. Depois de alguns dias em Caconda, com cinco crianças sobre os ombros e o amargo da desventura no peito, retorna a Caluquembe, para parte da casa de Cipriano Godinho como moradia e onde, tempos depois, monta uma pequena loja que entrega aos cuidados de seu filho António e de sua sogra que, entrementes, foi para Caluquembe ajudar a cuidar dos netos. Durante uns cinco anos dividiu o seu tempo entre Caluquembe e Ganda. Em Caluquembe, a trabalhar em fotografia e na ajuda ao pequeno comércio; na Ganda, como guarda-livros de seu amigo Júlio Fonseca, dono de um considerável estabelecimento de luxo e armazém de venda por atacado.

Quinze anos depois – reencontro

Mesmo longe e em constantes mudanças o Zeca nunca esqueceu os pais, a quem escrevia com regularidade, pelo correio, função confiada aos chefes de posto.

ATÉ QUE – Após quinze anos, numa certa noite de certo dia da semana, depois de um desvio pela Missão do Munhino visitar o padre Pereira e ter tomado o caminho errado na bifurcação do mutomboti (árvore de fruto silvestre), a 500 metros do destino, acompanhado do ajudante munano, numa carrinha do padre Laagel, chega ao lugar onde nascera. Ao aproximar-se da casa deve ter recordado os tempos de infância e seu cantarolar enquanto guardava o gado: “Meu Pai da minha alma, minha mãe do coração, por mil anos que eu viva, não lhes pago a criação!”

Só de dia e muito raramente passava algum carro por ali. Assim, com a chegada de um carro àquela hora, dá para imaginar o espanto que o “fenómeno” causou aos pais e aos seis filhos: João, Vitorino, Albano, Hermínia, Dinora e Jorge. A nossa mãe, sempre a mais afoita, abre a desengonçada porta e vê um vulto (não existiam lanternas de pilhas) que avança para ela e pronuncia as palavras: “ Mãe, sou o Zeca.” A nossa Mãe, em delírio, só dizia: “ Não acredito, não acredito! Tragam o candeeiro ”.

Dentro da casa, pega no candeeiro e aproxima-se dele balbuciando: “quero ter a certeza”. O nosso Pai, fazendo da fraqueza forças, lentamente, sai da cama e, com a voz embargada, conseguimos perceber as suas palavras: “é ele, o nosso vira virote.” Seguem-se os abraços e pranto enquanto os cinco irmãos (O João já o conhecia de uma ida a Caluquembe, de carroça) extáticos esperavam pelo amainar da emoção. O Zeca manda levar para dentro de casa uma Tximbala cheia de bananas, oferecidas pelo padre Pereira. Enquanto os três matavam as saudades na presença do João, nós cinco saboreávamos as bananas até que o sono nos derrubou. No dia seguinte foi a vez da distribuição das lembranças, calhando-me um cinto de elásticos entrelaçados. As lembranças chegaram para todos, incluindo os ausentes.

 

 

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Na Chibia (1936). Grupo: casal João / Maria José, filhos genro e netos:plano superior: João e  Alípio; 1º à esquerda: Alípio Jr; 1º à direita: Dinora ao lado do pai; 3º à esquerda: Albano atrás da mãe; sentados: Luis, Pedro e Jorge.

 

No domingo fomos todos passear à Chibía onde tirou um retrato, a um grupo de 17 pessoas, que conservo. Dias depois, numa despedida comovente, o nosso pai, já com dificuldades de locomoção, ao abraçá-lo, balbuciou: “Não voltarei a ver-te!” Graças a Deus, que me lembre, voltou a abraçá-lo mais quatro vezes, proferindo sempre as mesmas palavras. Até que a 12 de Dezembro de 1943 o seu pressentimento se cumpriu. Não sei se nesta primeira visita o Zeca já era viúvo. Calculo que não. A grande tristeza de seus pais era não poderem ir a Caluquembe (como fizeram o João, Sabino e Clara) para conhecerem a nora que, nas suas frequentes cartas, manifestava essa sincera vontade.

Dois anos depois, agora viúvo, numa limusina do Padre Laagel, com chauffeur munano, volta a visitar os pais. Mas, nesta visita aconteceu um lamentável incidente que por pouco não terminou em desgraça. O presunçoso chauffeur segue com o carro para a Missão da Huíla, onde ficou hospedado, sob compromisso de entregar o carro no dia seguinte. Mas o dito munano só apareceu três dias depois para regressarem a Caluquembe. O Zeca, furioso, chama-lhe uns nomes e dá-lhe um tabefe. O dito, regressa à Missão e, momentos depois, reaparece com o baixinho Irmão enfermeiro “Mutiquiri” que, aos berros, dispara os impropérios que lhe apeteceu, gerando-se uma longa altercação.

O nosso pai, um paz de alma, não resistindo ao “bombardeamento”, a cambalear e a desfalecer, é amparado pelo João que o leva para a cama. Ante tal emergência, o Mutiquiri cala-se, pega na sua mala de médico e aplica a injecção própria para o momento. “Pousada a poeira”, o Zeca manda o chauffeur com seu carro de volta a Caluquembe, enquanto o irmão enfermeiro, no seu “gafanhoto “ (carro estreito de um lugar), regressa à Missão.

Depois do almoço – se é que houve almoço – como a nossa Mãe com as duas filhas tiveram que ficar ao lado do nosso Pai, fomos para o outro lado, para a casa da tia Emília situada à beira da estrada onde, esporadicamente, passavam carros. Por sorte, no fim da tarde, passou uma carrinha que o levou para o Lubango acompanhado do João. No Lubango, dois dias depois, apanha uma camioneta que o leva de regresso a Caluquembe.

Ainda na década de trinta, por três vezes visitou os pais: uma vez na companhia do Valentim, dono de uma camioneta para 3 toneladas; outra vez acompanhado de António Monteiro, marido de sua prima Maria Nóbrega, numa camioneta do Mendes, da Chicuma; e a última, nos finais de 1939, em camioneta alugada com chauffeur munano quando, a pedido do pai, leva o Vitorino consigo. Foi numa destas visitas que, amargurado, teve este desabafo: “quantas vezes senti vontade de pegar nos quatro filhos e lançarmo-nos a um poço”. Foi também numa destas visitas que entregou ao nosso Pai uma nota de 500 angolares para liquidação dum débito à Missão da Huìla.

Em 1944, ainda sob os efeitos do desgosto pela perda do pai, volta à Huíla com o cunhado Manuel Guerra que lhe cobrou 20 angolares pela passagem desde o Lubango; procedimento que o chocou. Permaneceu ali uns três dias.

Até 1947 não voltou à Huíla. Imagino para fugir à angústia que sentiria ao contemplar o lugar onde durante quarenta anos, ao lado da sua amada frisadinha, fora a alegria do pai. Não ia à Huíla, mas nas suas frequentes viagens ao Lubango no negócio de café, talvez por informação do João Ricardo encontrou-se algumas vezes com a nossa mãe acompanhada do João. Além disso, em 1945, a nossa mãe foi passar uns dias a Caluquembe.

Dias melhores

O Zeca assenta definitivamente em Caluquembe e entrega-se com total empenho ao negócio, ainda na casa de Cipriano Godinho. Com os lucros que ia obtendo, aos poucos, levanta o seu primeiro prédio, a tijolo, para residência e comércio misto; armazém e anexos a adobe. Um compartimento destes anexos serviu de câmara escura, depósito dos clichés e do diverso material que a arte exigia.

 

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Concluído o prédio, em meados de 1942, o Zeca, casado em segundas núpcias com Irene Conceição, mudam-se para a SUA PRIMEIRA CASA de onde só saiu em 1970, por trespasse para o Camilo, para habitar o seu bonito prédio no Lubango – Bairro Camisão. Na nova loja, atinge um volume e movimento comercial consideráveis. Segundo Joaquim Reis – que adorava o cunhado – o que mais contribuiu para o seu sucesso comercial foi o negócio de café, ideia do seu grande amigo João Ricardo, mais ou menos da mesma idade, irmão de Manuel Ricardo, seu primeiro patrão.

 

 


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Com a afirmação do nome como firma comercial passa a abastecer-se, directamente de Benguela, de mercadoria mais barata e variada. Assim, passa a dispor de condições para atrair aviados e fornecimentos aos alemães, a pagar com as colheitas de café. O café era confiado ao João Ricardo, que por sua vez o vendia aos retalhistas de, digamos, toda a Província da Huila.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Odisseia de Uma Gente III–Huila

             Povoação da Huila          

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Cascata da Huila
Das mentiras e omissões à verdade
Topografia – Pelo esboço cartográfico já referido, podemos observar que a “Cordilheira Marginal”, no seu prolongamento para sul, caprichosamente, vai delimitar o vale do Lupolo numa configuração semiovalar semelhante ao da colina do Lubango. A saber: a noroeste, a cascata da Huíla; a oeste, a cascata da “Mutxa” que abastece a Missão Católica da Huíla; e, entre estas, no sopé da serra, a ombala da Huíla e suas verdes mulembas; a sul, a simétrica serra da Catala. A norte, este e sudoeste, a fechar a configuração ovalar, as txitetas – mata arbustiva espinhosa (unha-de-gato), espécies frutíferas selvagens e a milagrosa mutunda, entremeadas por maumbô (aldeias), (eumbô no singular) da comunidade mundonga.

Toponímia – segundo opiniões de pretensiosos linguistas, o nome Huíla deriva de Auyla, Hila ou Hohila (Ovila seria a forma correcta). Destes, o que melhor se adapta, é Ovila (pássaros). Todavia, “etimologicamente”, a transposição para o português de qualquer destes nomes está errada. A forma correcta seria Uíla – sem agá; e o nome dos seus naturais, muílas: simplificação de mumuíla (vamuíla no plural), denominação orgulhosamente utilizada entre estes.
A propósito – Salvo provas convincentes discordantes – o nome Huíla (vou respeitar o excrescente H) correspondia somente ao lugar da ombala e da cascata. O vale assim como o rio que o banha, chamava-se Lupolô (rosto), nomes que os povos vizinhos sempre respeitaram. Foi por força da velha ombala e próximo desta a fundação da fortaleza, em 1845, pelo agitador e oportunista major Garcia, que o nome se popularizou a todo o planalto e adoptado para designação do distrito da Huíla instituído em 1901.

Povoamento por raça branca – Neste caso, para bom entendimento, vou alternar com certos pormenores porque, sem estes, a história ficaria deficiente. Nos princípios do século XVIII, a região foi sendo conhecida por viandantes, portugueses e estrangeiros, procedentes de Benguela, com passagem obrigatória pela Huíla ou por Caconda – conforme o destino destes – para pagamento de tributo aos soberanos: em fazendas, aguardente, pólvora e bugigangas. Em troca era-lhes concedida liberdade mercantil e garantia de relativa segurança. O objectivo dos aventureiros portugueses traduzia-se no negócio de permuta de artigos atrás referidos, por marfim, cera e – o mais lucrativo – escravos, a embarcar em Benguela e na Angra dos Negros baptizada, em 1785, com o nome de Moçâmedes. Os aventureiros estrangeiros, sob a capa de negociantes, as suas missões, ao serviço de algumas nações europeias, eram o reconhecimento do terreno e espionagem do potencial económico do que veio a constituir, quase dois séculos depois, o leste e sul de Angola.
Atenção: a abolição da escravatura, por decreto, nunca passou do papel. Mudou apenas de plumagem!

Alba NovaEm 1768, o visionário Sousa Coutinho, então governador-geral de Angola, manda fundar, na Huíla, a povoação de Alba Nova onde foram colocados alguns brancos. Quantos? … Sabe-se apenas que, mesmo com a “remessa de 31 degredados da Metrópole para a Huíla”, em meados de 1849, a presença de portugueses na utópica Alba Nova estava reduzida a um sargento e sete colonos abandonados.
Toda a costa, de Benguela à foz do rio Cunene, de que Portugal, sem nenhuma presença portuguesa ali, se arvorava de dono, estava sendo cobiçada por certas nações europeias. Vulnerável à iminência de uma ocupação, em 1840, foi construída a fortaleza de Moçâmedes com uma guarnição de 50 soldados. Em 1845, além dos militares “contava com mais 70 pessoas entregues ao comércio do interior e apenas um à pescaria”. Em 1849 “foi criado o governo de Moçâmedes, com a mesma categoria do de Benguela”.
No século XVIII, “nas nações americanas que foram adquirindo independência”, desenvolveu-se um movimento xenófobo, conhecido por doutrina do “nativismo”, que perseguia os que não fossem naturais do continente. Tal despautério contagiou também o Brasil. Ali, onde o antagonismo entre naturais e portugueses era frequente, este movimento manifestou-se contra portugueses trasmontanos, culminando com “sangrentas perseguições, em Junho de 1848, na cidade do Recife”, Província de Pernambuco.
Na sequência destes factos, a pedido dos perseguidos, por deliberação do ministro da Marinha e Ultramar, estes seriam transferidos para Moçâmedes, com transporte gratuito e promessa de ajudas. Em Maio de 1849 um grupo e 170 indivíduos, em duas barcas, zarpa do Recife, chegando a Moçâmedes nos princípios de Agosto. Em 1850, também em duas barcas, com o mesmo destino, embarcaram 144. E, em 1851, mais cem indivíduos. O custo de transporte e outras despesas foram suportados por meio de subscrição entre portugueses radicados no Brasil. A ser verdade, depreende-se que o ministro não cumpriu as suas promessas.
Estes desamparados, fugidos às agrestes serranias de Trás-os-Montes e por breve tempo nos verdejantes campos de Pernambuco, foi grande o seu desencanto ao desembarcarem em Moçâmedes: à sua frente deserto, só deserto; para trás mar, só mar. Com a entrada destes 414 “bratugueses” aumenta a população de Moçâmedes, elevada à categoria de vila em 26 de Março de 1855. Do primeiro grupo de “colonos” provenientes do Brasil, ainda em 1849, parte destes é enviada para a Huíla. Em cumprimento às promessas de ajuda foi-lhes distribuído: leiras de terra, uma mancheia de grãos de milho, uns ramos de “cinco bicos” (uma das três espécies de batata-doce), algumas enxadas e machados rudimentares. Sem vislumbres promissores acrescido da insegurança devida a uma sublevação dos seus vizinhos nativos, vítimas de toda a sorte de fraudes, um ano após a sua chegada a maior parte abandona a região.
Em meados dos anos 50 os poucos brancos que se mantiveram na Huíla “sem nenhum amor à propriedade (…) só se ocupavam de intrigas e ninharias”. Talvez por isso e sucessivos fracassos, em Março de 1857 foi criado o concelho da Huíla. Que nada adiantou. Por incompetência dos chefes e seus superiores, a sorte da Huíla estava traçada: condenada à estagnação.
Os demais “bratugueses” que aportaram em Moçâmedes, não vendo ali quaisquer perspectivas económicas, muitos deles demandaram para norte. Num sobe e desce através dos montes do Deserto Namibe, foram fixar-se no planalto do Bumbo e Capangombe, 500m de altitude, com pluviosidade suficiente para a cultura de espécies pouco exigentes. À força braçal entregaram-se à plantação de algodão, cana-doce e outras culturas para consumo próprio. Os que permaneceram em Moçâmedes dedicaram-se à pesca, hortas nos pequenos oásis nas margens dos rios Bero e Giraúl. Com o passar dos anos, ao comércio e expansão piscatória.

Vista Alegre – Em 1857, ano da elevação da Huíla a concelho, encontravam-se ali 29 brancos. A 9 de Julho desse ano, acompanhados pelo governador interino de Moçâmedes, chega à Huíla um grupo de colonos: 28 alemães e 5 rapazes da Casa Pia, estes, com idades compreendidas entre os 13 e 18 anos. Nesse mesmo ano a colónia foi reforçada por um insignificante grupo, entre eles 4 alemães. Ao novo povoado, na presença do soba, foi dado o nome de Vista Alegre, com promessas de instalação dum moinho, fábrica de tijolo e telha e duma coudelaria!? Nos finais 1858 dos alemães restava apenas um de apelido Quaresma. Quanto aos colonos portugueses, abandonados à sua sorte, vegetavam pelas matas circundantes a colher frutos silvestres e a caçar coelhos e perdizes. O único bem de que dispunham com abundância era água corrente e cristalina.
Colónia Militar Agrícola – O ministro Sá da Bandeira, conhecedor das malogradas tentativas de colonização da Huíla, manda organizar uma colónia militar formada por gente capaz nos diversos misteres e correspondentes ferramentas, um farmacêutico e pároco. Esta colónia (de salvação!) composta de 136 pessoas chega a Moçâmedes, na nau “Vasco da Gama”, a 5 de Dezembro de 1858. Foi tal a esperança posta nesta “excepcional” colónia que, entusiasmados, nela se alistaram 27 habitantes de Moçâmedes. A 17 de Fevereiro de 1859 – em plena estação chuvosa – partem para a Huíla 30 soldados, atingindo o seu destino em 10 dias. No dia 21 de Abril, ainda sob os efeitos da chuva, a pé e alguns animais de carga, seguem as restantes 133 pessoas (homens, mulheres e crianças). A 14 de Maio alcançam a Huíla. Só em Junho, época seca, o governador de Moçâmedes se dignou deslocar-se ao local para distribuição de terrenos nas proximidades da fortaleza. Porque não haviam sido preparadas quaisquer instalações de acolhimento, foram os próprios colonos a improvisar pequenas palhotas para abrigo do frio que se avizinhava.
Logo à nascença desenhava-se o fracasso desta colónia militar. Porquê? Foram muitas as causas do fiasco: grande parte dos soldados “eram deportados com largo cadastro e de péssimas qualidades, outros eram degredados”; inexistência de arados e animais de tracção; desconhecimento das épocas próprias de sementeira das diversas culturas; escassez de sementes. Resumindo: que outro resultado se poderia esperar de uma colónia preparada a trouxe-mouxe!?... A agravar a situação, em 1860, a fortaleza e a ombala são atacadas pelos povos do Nano que culminou com a decapitação do sargento Silva, chefe da fortaleza. Sete anos depois, o governador de Moçâmedes num relatório recheado de mentiras e contradições escrevia: “A Huíla não serve para coisa alguma como colónia agrícola nem comercial”. Frase risível e infeliz: a colónia militar-agrícola passa a ser conhecida por colónia militar ridícula! Mal pensado, tal epíteto, por direito, caberia ao governador.
Por encaixar perfeitamente aos factos, vou transcrever um excerto dum parágrafo do livro “TERRAS ALTAS DA HUÍLA”: “as próprias autoridades administrativas não acreditavam na Huíla. Viu-se como em 1867 o governador de Moçâmedes chegava à amarga conclusão de que a Huíla não servia para nada. E quando, em 1873 cerca de 300 portugueses residentes no Pará pensaram em transferir-se para Angola, repetindo a odisseia de 1849-50,” o governador de Moçâmedes desaconselhou (negou) a pretendida transferência.
Outros desconchavos do género foram escrevinhados com a intenção de dissimular a ganância dos poderosos mandões. Para estes só interessava a cultura de produtos de rendimento imediato e seguro, à força de mão-de-obra escrava: algodão para exportação e cana-sacarina transformada em aguardente destinada à permutação por escravos, gado bovino e marfim. Porque na Huíla, devido à altitude e condições climáticas essas espécies não medravam, esta foi “ridiculamente” marginalizada. Mas não sucumbida.
Quarenta anos depois a “imprestável” Huíla era lembrada por João de Almeida, (governador do distrito, 1908 – 1910) no seu livro “SUL DE ANGOLA”, assim: “Na Huíla, ao lado das tentativas da colonização oficial, que em regra fracassaram (…), muitos portugueses oriundos de vários pontos da Metrópole se foram estabelecendo, os quais com os simples recursos do seu trabalho e do seu engenho, mas livres das peias do regime da colónia iniciaram os trabalhos da agricultura nos vales do Lupolo, Mutxa, Nene e Txipumpunhime e construíram, pode dizer-se, a povoação da Huíla, embora à sombra da fortaleza”.

Prosseguindo – Desde o meu despertar para olhar o berço que Deus me reservou e que o destino dele me afastou, 52 anos passaram. Longo espaço de tempo quando o imaginamos no porvir; mas tão curto quando memoriamos o nosso passado. É graças a essa faculdade que conservo, indeléveis, as imagens da Huíla: na sua forma física, laboral económica e social.

FisionomiaA uns 500 metros na margem direita do rio Lupolo, numa extensão de aproximadamente 3000 metros, situavam-se 20 fogos de adobo – uns cobertos a telha outros com chapas de zinco – afastados entre si e desalinhados, servidos por duas estradas paralelas: para carros de bois e para viaturas automóveis, ambas de acesso à Missão Católica. Neste conjunto de edifícios constavam quatro estabelecimentos comerciais e a escola primária, “Padre Carlos Duparquet”, com uma frequência média de 70 alunos confiados à Competente Professora D. Júlia Cândida Gil Armada de Menezes, onde permaneceu 25 anos.
Na margem esquerda do rio, com as mesmas distâncias do lado oposto, existiam 18 casas. À excepção da nossa – a adobo e coberta a capim – as demais eram de adobo, umas cobertas a telha outras com chapas de zinco, também afastadas entre si e desalinhadas. Não existiam estabelecimentos comerciais; mas contava com uma grande e completa oficina de veículos de tracção animal, propriedade de José Marques Gomes (Camacho, por ser natural da Camacha). Este lado era servido por uma estrada para carros de bois e na década de trinta foi feita uma desmatação com valetas laterais chamada estrada para automóveis, com uma curva à direita a seguir à nossa casa para, sobre uma tosca ponte feita de vigas de eucalipto, ligar à estrada da outra banda. Os dois lados descritos eram conhecidos por parte baixa da Huíla.
A noroeste, na falda da serra, entre a cascata e proximidades da Txípia a norte, lugar conhecido por Huíla, contava com: o posto administrativo; a residência do chefe; o matadouro e talho; um moinho movido a água; uma oficina de carroças; a igreja paroquial; um sobrado (casa de dois pisos) um bom estabelecimento comercial; dois grandes pomares de citrinos; nove moradias – uma delas com pequeno comércio anexo –; e ao fundo de uma avenida o cemitério e seus tristes ciprestes. Eu sentia pavor por este lúgubre aglomerado onde raras vezes pisei. Razões: a presença do aterrador posto administrativo com seus sipaios de sentinela, a palmatória de cinco olhos e o chicote de cavalo-marinho pendurados na parede; ao lado deste o sombrio calaboiço com presos tiritantes encostados às janelas gradeadas; o fedor das ensanguentadas e estagnadas águas provenientes do matadouro; o horripilante sibilar do vento ao passar pelas aculeiformes folhas das feias casuarinas ali plantadas como árvores ornamentais! …

Práticas agrárias – A contar das casas, até ao rio, cada família dispunha do seu terreno cuja área variava entre um e dois hectares, designado de alto – solo arenoso, ligeiramente desnivelado; e baixa – de natureza argilo-arenosa, quase plana – nas margens do rio. O alto, esgotado, só frutificava a poder de regular estrumação. Para o efeito – no nosso caso, com uma manada variável de 25/30 bovinos – durante a época das chuvas era feito um curral campal, com gastalhos da impenetrável “unha-de-gato”, para recolha do gado e sistemática estrumação directa. Semanalmente o curral era deslocado para o lado contíguo e de imediato lavrada a parcela libertada para retenção dos nutrientes produzidos pelo gado. Esta técnica repetia-se, de forma itinerante, todos os anos.
Nos finais de Março transferia-se o gado para local mais elevado, no meio da mata, como resguardo das frias noites de verão. Permanecia ali até meados de Setembro. Semanalmente distribuíam-se camadas de palha e folhas verdes, que misturadas com os dejectos resultavam num rico fertilizante. Este adubo, transportado, sem pressas, para a baixa – durante algum tempo em “cuim-cuim” e a partir de meados do primeiro quartel do século em carroça própria – iria servir, no momento próprio, para enriquecer a terra reservada à cultura de cebola, alhos e hortaliças.
Em simultâneo, com a transferência do gado, todo o alto passava por uma lavra com charrua reversível e regularização por pesada grade de um por dois metros, com três filas de dentes de ferro alternados. Por ordem do racional sistema de afolhamento, ao cair das primeiras chuvas – Outubro – procedia-se à sementeira de batata, feijão e outras leguminosas. Em Março semeava-se nova parcela de batata e feijão, assim como plantação de cará e tabaco. Em meados de Abril tinha lugar a sementeira do trigo dependente de regas semanais, por gravidade, asseguradas pela água da levada que entretanto entrava em giro.
Recordadas as engenhosas operações no campo alto, vou passar à baixa. Em Setembro, num talhão previamente preparado, procedia-se à sementeira, a rego, de milho temporão. Em Outubro, após a ceifa do trigo, à parte um espaço destinado aos legumes, cultivados todo o ano e alhos em Fevereiro, a restante área era charruada, destorroada e deixada em repouso temporário e à contingência de alagamento pelo transbordamento do rio. No início de Março cortavam-se cerce as plantas do milho temporão, já maduro, transportadas para a casa. Ali descamisavam-se as maçarocas e, atadas aos pares, penduradas em paus assentes nas paredes; enquanto os caules seguiam para o curral e a palha das maçarocas, amaciada, para as enxergas.
Colhido o milho, a terra passava por duas lavragens cruzadas, cava profunda e extracção do restolho. Seguia-se a abertura de regos, a cada três metros, para demarcação das leiras e condução da água para rega. Estas leiras, primorosamente aplanadas, davam lugar a um momento muito especial: a transplantação do cebolo dos alfobres, semeados nos princípios de Janeiro. A água, sempre à mão, derivava directamente do rio, dum açude torroado, a escassos metros do presente local. Em meados de Maio, na terra então em repouso, precedida de adequado amanho, tinha lugar a segunda sementeira de trigo. Esta sementeira, ao contrário da do alto, exigia apenas duas ou três regas até o amadurecimento. Recordei as operações por que passavam os campos e as épocas das várias sementeiras. Sem esquecer que estas, da germinação ao celeiro, dependiam de especiais cuidados permanentes.

Proveito dos frutos – Milho, muito dele produzido no arimbo do Noncoco, em grão sustentava as galinhas e porcos e em farinha para fins culinários, alimentação dos serviçais muilas e dos estimados cães de guarda; batata e feijão, consumo e venda; cebola e alhos, pequena parte para consumo e o grosso vendido no Lubango do qual, com o dinheiro realizado, satisfaziam-se algumas faltas de uso doméstico e pessoal e o restante adicionado ao pecúlio, bem guardado numa lata; trigo, consagrado ao pão-nosso de cada dia, cozido aos sábados.
Levadas – Mais conhecidas por valas, aos primeiros sinais de despedida das chuvas – Abril – cada agricultor procedia à limpeza da parte correspondente aos limites do terreno. No caso de um terreno inculto, os agricultores a jusante assumiam a limpeza da respectiva extensão. Estas valas derivavam, para os dois lados, dum precário açude “construído”, pelos agricultores em conjunto, com estacas e torrões argilosos, na cabeceira do rio, a cerca de 700 m da cascata. Só três quartos do caudal do rio alimentavam as levadas. O demais, aumentado pelas infiltrações, seguia o seu leito o qual, engrossado pelo remanescente do rio Mutxa ia, por meio de açudes, dadivar mais pão até à sua confluência com o rio Caculuvar – 40 km da sua impoluta fonte.
Por convocatória do chefe do posto, em assembleia, era eleito o juiz-de-vala, (não remunerado), assim como o levadeiro, com um modesto salário suportado, pró rata, pelos agricultores. De seguida, proporcional à área cultivada, ficava estabelecido o número de horas de rega – giro – a controlar pelo levadeiro. Até Junho o sistema funcionava do nascer ao Pôr-do-Sol; a partir daí, devido a gradual diminuição do caudal, o giro passa a ininterrupto.

Obras Públicas, exemplo rotineiro – Nas poucas visitas do governador do distrito, o povo concentrava-se no largo da Igreja Paroquial para o “beija-mão”. Acompanhado do administrador do concelho era conduzido para o palanque. À sua direita, o soba – trajado de branco com fitas de seda multicores – e o administrador; à esquerda, a professora da escola primária e o chefe do posto. Entoado o Hino Nacional, pelos alunos da escola da Huíla e da Missão Católica, seguiam-se as danças executadas pelos muílas ao ritmo da “ghoma” (bombo).
Passada a cerimónia solene, proferiam-se os discursos. Primeiro a professora que – de improviso – principiava com os cumprimentos de boas-vindas, etc., etc., terminando, em tom reivindicativo, com o pedido de construção duma escola condigna com cantina destinada aos alunos mais distantes e carentes. Segundo orador, Francisco Tavares a lembrar a necessidade e vantagens da construção duma represa, em betão, próximo da cascata, e a partir desta dois canais em alvenaria acima das velhas levadas; a substituição da tosca e frágil ponte de madeira por outra em cimento armado; solicitava ainda para que a linha-férrea, (em estudo) em direcção aos Gambos, passasse pela Huíla.
Do governador, em resposta às petições, o estafado “disco”: “a seu tempo todos os vossos anseios serão satisfeitos”. Paaalmas!. Para quê? Quando as bonitas promessas eram logo esquecidas.
Apoios a agricultura – Se existiam serviços de assistência e auxílio aos agricultores (penso que sim) eram puramente simbólicos. Só com a criação da Junta dos Cereais, em meados dos anos 40, teve lugar a distribuição de trigo para semente, reembolsado, com um acréscimo de 10% no acto das colheitas.
Sanidade Pecuária – Incompreensível! Enquanto no vizinho Sudoeste Africano – actual Namíbia – procediam à vacinação geral do gado bovino contra a maléfica “cauanha” (peripneumonia) com vacina produzida em laboratório, na Huíla, onde grassava esta epizootia, não foi tomado, por quem de direito, o exemplo do Sudoeste Africano. Pelo contrário, insistiam na empírica “vacina de campo” praticada por alveitares: aplicação duma pequena lasca de pulmão, dum animal contagiado, sob a pele na ponta do rabo, ligado com uma tira de pano-cru. De efeitos duvidosos, nalguns casos a zona da incisão degenerava em gangrena, obrigando a amputação da cauda.
Na década de 30 foi introduzida a vacina de laboratório. Porém, porque era cara e a pagar e não ter sido empreendida uma vacinação gratuita em massa, a moléstia persistiu. Só a partir do início de 1950 com vacina produzida em Angola e vacinação geral gratuita e obrigatória, a moléstia foi combatida, praticamente erradicada.
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Por fim – O meu louvor às maravilhas da pródiga Natureza, dádiva deleitável aos sentidos de quem ama as Obras do CRIADOR. A chilreada das avezinhas a anunciar a aurora de um novo dia, seguido do canto do galo – o canto que despertou o coração do angustiado Apóstolo Pedro; o radioso Nascer e Pôr-do-Sol; o mugido das vacas, o cacarejo das galinhas, o grunhido dos porcos; os melodiosos trinados das muitas espécies de aves canoras, o canto à desgarrada das três espécies de milhares de rolas; o ondular dos trigais; a cantoria dos homens nos campos. O deslumbrante Arco-íris a beijar o chão próximo dos nossos pés. E, a contrastar com o azul celeste, os eternos multiformes e níveos cúmulos, lembrando a nuvem que envolveu Jesus na Sua ASCENÇÃO AO CÉU. Belezas dignas de pincel de um mestre paisagista. Complexas vozes merecedoras duma composição sinfónica.
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Populações – Naquele tempo não existiam distinções rácicas entre a sociedade. Por isso e por respeito ao invulgar ambiente de boa harmonia entre a gente da povoação da Huíla e arredores, o adjectivo branco e mestiço não tem aqui lugar. O número de habitantes – de 1920 a 1950 – flutuou entre 300 e 350. Pelos apelidos que consigo rememorar dos tempos de escola, viviam ali cerca de 25 famílias.
Dessas, três merecem especial menção. Não por distinção de valores comparativos às demais; somente porque foram as mais prolíferas, “responsáveis” por mais de metade da população.
Foram, por apelidos, as seguintes:
1) – Santos Almeida / Guerra, 4 irmãos, 3 homens e uma mulher, a primogénita, que adoptou o apelido Guerra, do marido. Provenientes da região da Guarda / Portugal, estabeleceram-se na margem direita do rio Lupolo por volta de 1880. Da primeira casa e respectivo terreno no termo sul da povoação, em contínuo, até à 15ª atrás descritas, pertenciam a esta família.
2) – Família Moreira, consistia da matriarca, Guilhermina, angolana, viúva de um português ali chegado por volta de 1880, 7 filhos e 4 filhas. Os terrenos e sete casas, seis situavam-se, seguidas, no centro da povoação, margem esquerda; e uma na margem direita. A Guilhermina viveu 109 anos.
3) – Família Rodrigues e Rodrigues Panasco, já explicado.
Dos quatro filhos e duas filhas da Guerra, três deles casaram com primas. Entre as três famílias mencionadas aconteceram cinco casamentos.
Famílias Madeirenses, apelidos – Carvalho, Freitas, Góis, Henriques, Lisboa, Marques Gomes, (Camacho), Nóbrega, Rodrigues, Rodrigues Panasco, Rosa, Silva (Machiqueira), Sousa, Tomás.

Ainda – Nessa época e por mais alguns anos, legalmente, a população dividia-se em três classes: brancos, os nascidos em Portugal e Ilhas Adjacentes; euro-africanos, os descendentes de brancos independentemente da tonalidade da pele; indígenas, os pretos em geral. Havia, ainda os “assimilados” (em número insignificante), uma das muitas vergonhas paridas pelos mentecaptos “governantes”?!
Destas classes os mais papalvos eram os idos de Portugal, quer das cidades quer das aldeias. Precisavam de algum tempo para se civilizarem; de lhes “cortar o rabo”, como diziam os pretos. Mas eram os privilegiados até os anos de 40 no acesso ao funcionalismo público!
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Há mais Angola além do petróleo

 

Angola considera que a agricultura é prioritária e está a preparar alternativas aos diamantes e ao petróleo. Café e algodão estão na lista dos produtos prioritários.



Exame - Expresso

"Podemos esquecer o petróleo e os diamantes, precisamos diversificar os investimentos, e isso passa obviamente pela agricultura". Quem o diz é Mateus Sá Miranda, cônsul-geral de Angola em Faro, à margem de um seminário dedicado ao tema, promovido pelo Consulado e pela Câmara Municipal de Portimão.
"A estratégia do Governo angolano está centrada na diversificação da economia e a agricultura é uma das áreas em que vamos apostar. Temos um solo muito fértil que tem de ser aproveitado e que não o foi em função da guerra", acrescenta ao Expresso Estevão Alberto, conselheiro de imprensa da Embaixada de Angola em Portugal.
Segundo os especialistas, a questão que se coloca - e que tem sido 'abafada' pelo tema da crise financeira global - é a da da escassez mundial na produção de alimentos, algo a que Angola parece estar agora atenta: "Eu penso que há muito espaço para crescer e apelo aqui aos investidores do Algarve para que olhem para Angola e pensem no seu know-how ao nível da produção agrícola, para apostarem lá em especial em produtos como o café e o algodão", adianta Jorge Kalukembe, geógrafo e CEO da Kumbu, empresa consultora de negócios sedeada em Portimão.
Como exemplo, Kalukembe aponta a valorização do café que rondou os 1400% em apenas 10 anos, quando a cota mundial de produção de Angola é de apenas 0,003%. Não será coincidência o fato de o Governo angolano estar a disponibilizar linhas de crédito que rondam os 280 milhões de dólares para fomentar a plantação de café e de algodão, numa área agrícola que ultrapassa um total de 150 mil hectares.
Desminagem 'ressuscita' agricultura
Com o processo de desminagem numa fase adiantada, é tempo de angolanos e portugueses darem as mãos e trocarem experiências e investimentos, em várias escalas. "Aqueles que não conhecem Angola vão encontrar uma nação em mudança", garante Jorge Kalulembe, autor de vários livros sobre os recursos naturais e a economia de Angola, que assim abre as portas ao intercâmbio financeiro e cultural entre duas nações cada vez mais próximas.
Recorde-se que o número estimado de angolanos em Portugal ronda os 100 mil, enquanto o de portugueses em Angola já excede os 170 mil. Um fluxo que ajudará a economia angolana a crescer, assente sobretudo na procura de quadros qualificados tendo em vista áreas de elevado potencial, como a agricultura e o turismo.
Que o diga Marta Cortegano, engenheira florestal da Associação Defesa Património de Mértola, que pegou em case studies alentejanos para mostrar o espaço de crescimento de Angola, nos recursos florestais. "No caso de Angola estamos a falar de uma biodiversidade extraordinária. Há pequenos produtos de que não nos lembramos numa lógica de investimento, tais como o mel biológico, os frutos silvestres ou as plantas medicinais e importa valorizá-los, integrá-los num processo de desenvolvimento económico", vaticina.
A seguir, virá a expansão turística: "É preciso uma mercadologia do território, que tem a ver descobrir no território elementos de diferenciação e potenciá-los como marcas vendáveis", conclui Raúl Marques, geógrafo, apelando à criação de marcas regionais que potenciem o território angolano.
 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dª Beatriz


d beatris

Beatriz Teyller

Muitas pessoas passaram pela minha vida, mas só algumas  ficaram na minha memória, entre elas: a Dona Beatriz.
Capturdar
Não me esqueço dos bons momentos passados nesta casa, a casa da Dona Beatriz,  onde com outros miúdos passei horas a comer amoras.
Para além das boas recordações que tenho desta Senhora, sempre ouvi da parte dos meus pais e de muitas outras pessoas tudo quanto de bom existe num ser humano. Pessoa inteligente e boa conselheira, sempre pronta a ajudar o próximo.

Nasceu em 1902, no Humbi.
Filha de Frederico Augusto Teyller e Ana Teresa.
Em 1930 foi viver para o Cué onde conheceu e casou com Abílio Augusto Correia.
Não teve filhos. Criou os sobrinhos, entre eles a Catarina a Sofia e o Abílio.
Dedicou-se ao comercio e agricultura.
Em 2004  faleceu no Lubango, com 102 anos.

Os dados biográficos foram fornecidos por Sofia Teyller.

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Momento de poesia

 

Longe dessa terra amada

Que jamais será esquecida

Toda a malta retornada

Tem ligada à sua vida

 

Não há palavras que digam

O que no peito sentimos

Essa profunda saudade

Sentida quando partimos

 

Terra morena

Quem no teu sol se aqueceu

Tenho a certeza

Que nunca mais te esqueceu

 

E sempre em nós

Havemos de recordar

Toda a beleza

Do teu luar.

 

Ora suave, ora agreste

Por todo o lado há beleza

Melodiosas cascatas

Criadas pela natureza

 

À noite nas batucadas

Tristes ou com alegria

Mergulham corpos e almas

Envoltos em poesia.

 
 
                                                    Poema de Ariete Varanda
 



Paulo Flores - Saudades

Angola - 100 grandes musicas dos anos 60 e 70

Memórias de África -As grandes músicas dos anos 60, 70 e 80. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,

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